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quinta-feira, 5 de março de 2015

Crónicas Temáticas: Reflexões e refracções V - O Pantera Negra é o pior rei de Wakanda




Nos últimos anos, o Pantera Negra tornou-se um dos membros mais importantes dos Vingadores, envolvido nas várias conspirações dos grupos Illuminati, um monarca de uma nação africana, impiedoso na sua determinação de salvaguardar o futuro do seu país, Wakanda. É considerado um dos super-heróis mais inteligentes e mais perigosos, amado pelo seu povo, no entanto… como rei, é um grande falhanço.

O passado de T’Challa tem sofrido algumas alterações nos últimos anos, especialmente pela mão de Reginald Hudlin, cuja origem colocou o Pantera Negra no Bendisverso. Mas esses implantes de cronologia têm permitido explorar melhor como um país isolacionista conseguiu tornar-se tão evoluído tecnologicamente. Sem trocas comerciais ou culturais, o destino normal de uma nação ou etnia é a estagnação. No entanto, os wakandas parecem ser motivados por paranóia, desenvolvendo novos conceitos com o intuito de praticar guerra à distância, e conquistando as tribos circundantes, integrando-as no reino de Wakanda, ostensivamente para servir de escudo humano.

Mesmo assim, há alguma batota por parte dos wakandas. Os estrangeiros não são bem-vindos, mas uma família, os Khanata, foram seleccionados pelo Pantera Negra para viverem isolados, acumulando conhecimento sobre o resto do mundo, depois de um acordo feito com o líder da nação mais poderosa da época, Genghis Khan. O herdeiro mais recente da família é Derek Khanata, agente da SHIELD e embaixador do império do Garra Amarela, o que o deixa numa excelente posição para obter acesso a informação vital para a segurança da nação de Wakanda.

Já agora, um aparte para mencionar que Pantera Negra não é um nome de super-herói, é o título dado ao chefe da tribo wakanda, e só depois do novo chefe provar que o merece, derrotando os melhores guerreiros, consumindo a erva-coração e estabelecendo uma ligação mística e psíquica com o deus-pantera, que na verdade é a deusa egípcia Bast. Esta ligação cultural de um país isolado com o antigo Egipto não deixa de ser irónica, principalmente se levarmos em conta que Wakanda, que é uma nação fictícia, é geralmente colocada nos mapas do Universo Marvel numa zona onde convergem quatro famílias linguísticas africanas, bantu, niger-congolesa, afro-asiática e nilo-sariana.

Também penso que a tecnologia superior de Wakanda pode ter origem noutra civilização, se quisermos introduzir conceitos do Universo Wold Newton de Philip José Farmer. Uma coisa que Lin Carter, Robert E. Howard e Edgar Rice Burroughs tinham em comum em algumas das suas histórias era o Grande Cataclismo que acabou com a civilização atlante, e que a Atlântida tinha estabelecido colónias no continente africano, que tinham ficado isoladas umas das outras após o cataclismo, lentamente caindo na barbárie. A semi-deusa La, dos livros de Tarzan, vem de uma dessas cidades.

Mas voltemos a T’Challa. O seu pai, T’Chaka, foi o primeiro rei de Wakanda a ter um contacto mais profundo com os europeus, chegando a considerar uma entrada nas Nações Unidas. Foi também ele que permitiu a exportação do mineral vibranium (que apenas existe em Wakanda e na Terra Selvagem, e que tem origens alienígenas, bem como propriedades mutagénicas), razão porque este é encontrado no escudo do Capitão América. Mas T’Chaka sempre desconfiou dos interesses ocidentais e queria manter o contacto com europeus e americanos ao mínimo, acabando por demonstrar ter a razão do seu lado quando foi assassinado pelo aventureiro belga Ulysses Klaw, que depois de tornou o super-vilão Garra Sónica.
 
T’Challa, por seu lado, sempre esteve fascinado pelo que era estrangeiro. Estudou em Oxford e resolveu transferir-se para Nova York para se unir aos Vingadores, onde acabou por conhecer a sua primeira noiva (com quem nunca se casou), a cantora Monica Lynne. Até permitiu que se construísse uma pizzaria na capital de Wakanda (como foi visto na mini-série Panther’s Prey). E foi durante estes períodos que permitiu o surgimento de algo raro no seu reino: oposição política. Numa história dos Vingadores, publicada em Avengers nº 62, o Pantera Negra levou a equipa com ele para se opor a M’Baku, o Homem-Gorila. Nas histórias publicadas na antologia Jungle Action, escritas por Don McGregor, o primeiro arco relatava o conflito com Erik Killmonger, o Terror Negro, um exilado acompanhado por um exército de homens que sofreram mutações, como Venomm e o Barão Macabro. Até a sua madrasta, Ramonda, teve que se infiltrar no exército do Reverendo Achebe, na série escrita por Christopher Priest, para impedir uma invasão externa. E até mesmo os apoiantes mais fiéis de T’Challa, como o seu guarda-costas Zuri ou o seu chefe de segurança W’Kabi, sempre foram bastante críticos deste interesse do seu rei em eventos no estrangeiro e da evolução tecnológica rápida de que o seu povo foi alvo.

Esta dispersão de interesses do T’Challa resultou na perda do título de Pantera Negra para a sua irmã, Shuri, desencadeando uma série de eventos que culminaram na destruição do monte de vibranium (que, no reinado de T’Challa, tinha-se tornado a principal fonte de rendimento de Wakanda, através da tecnologia patenteada pela empresa estatal, o Wakanda Design Group, cujos produtos mais famosos incluem as asas do Falcão e os jactos dos Vingadores, e que não podem ser duplicados sem este material) e depois na devastação de Wakanda por Namor, seu aliado nos Illuminati. Infelizmente para T’Challa, todos os medos do seu povo, da sua família e dos seus amigos acabaram por se concretizar.


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