
Este foi um dos livros que mais me surpreendeu pela positiva, aquando da sua compra. Emmanuel Lepage, artista francês, era-me desconhecido ao nível artístico e embora já tivesse ouvido falar dele, demorei um pouco a obter este “Muchacho”. Para além desta obra publicada pela ASA, encontra-se também em português o livro “A Terra sem Mal” editado pela Vitamina BD.

Na realidade o que me levou a obter esta obra foi a exposição de Lepage no
20º Amadora BD! Fiquei estupefacto com a beleza dos originais presentes na exposição dedicada a este magnífico autor! Rumei imediatamente para a loja da ASA onde comprei os dois volumes de “Muchacho” e lamentei que a Vitamina BD não estivesse presente, pois também queria comprar o “A Terra sem Mal”. Como os livros da Vitamina BD não se encontram em muitos lados, sobretudo estes títulos mais antigos, ainda não possuo este… mas isso irá ser resolvido brevemente, provavelmente na Feira do Livro de Lisboa, se a Vitamina BD estiver presente pois ainda não verifiquei os stands deste evento lisboeta!
Lepage apostou nesta obra a solo, é o autor dos textos e parte artística, e pelos vistos não precisa de grandes ajudas para fazer estórias interessantes, e talvez por isso o entrosamento entre a estória e a arte esteja tão boa!
Lepage para esta obra, assim como para “A Terra sem Mal” fez o trabalho de casa indo ao terreno para melhor enquadrar as magníficas paisagens destes dos lugares, sobretudo aquelas que são passadas na selva. Assim temos um bom retrato do espaço onde decorre a acção!
A acção desta obra passa-se na Nicarágua entre 1976 (em plena ditadura de Somoza) e 1979 (queda de Somoza). Ditadura brutal que manietou e torturou todo um povo, abrindo espaço para as sementes da luta revolucionária do movimento Sandinista. É neste contexto que o crescimento (tanto político como sexual) de Gabriel de la Serna toma lug

ar.
O jovem seminarista Gabriel é incumbido de fazer um fresco numa igreja do interior, tornando-se grande amigo do pároco desta pequena terra do interior, Rubén. Este padre mostra e ensina a Gabriel como captar numa folha de papel a alma do povo desta aldeia. Demonstra a Gabriel que os desenhos bonitos e estereotipados que este fazia enquanto seminarista na capital, e que faziam as delícias do clero, eram vazios… faltava-lhe captar a alma e a essência das pessoas e dos eventos que ele ilustrava. Assim Gabriel começa do zero e aprende a amar aquela gente simples. Os problemas começam a acontecer quando Gabriel protege e esconde armas que serviriam à guerrilha Sandinista… a partir daqui tudo se precipita!
Mortes cruéis, perseguições fugas e por fim sozinho na selva! Aqui vai cair nas mãos de um grupo de guerrilheiros onde se apaixona por um estrangeiro… sim é uma história homossexual, embora este aspecto não seja mostrado como uma ruptura, ou com aproveitamento para chocar o vulgar leitor heterossexual. É apenas um dos aspectos deste livro e da personalidade em crescimento de Gabriel! Os valores da camaradagem, solidariedade e liberdade sobrepõem-se a tudo.
O final é agridoce, e talvez um pouco inesperado, mas muito bem conseguido!
Em suma… mais um excelente livro de BD com páginas vibrantes de vida e cor!
Aconselho este leitura, mesmo! Presumo que Lepage seja heterossexual, mas, e sobretudo no segundo volume, a sua arte realça a sensualidade do corpo masculino de maneira bastante hábil, não caindo em estereótipos fáceis de representação homossexual.
Muito bom!
Boas leituras!
Hardcover
Criado por Emmanuel Lepage
Editado em 2006 pela ASA
Nota : 9 em 10