terça-feira, 16 de junho de 2026

Islander Vol.1: O Exílio


- Apenas as pessoas munidas de passe estão autorizadas a aceder ao cais!

- Todos os infractores serão rejeitados!

 

Caryl Férey e Corentin Rouge  dois completos desconhecidos para mim. O primeiro no texto, o segundo no desenho, e também na cor com Céline Labriet. Foi algo inesperado, sobretudo a qualidade gráfica que por vezes roça a excelência.

Livro publicado pela editora Arte de Autor em 2025, que eu comprei por engano, queria comprar o Elric, e não sei o que se passou neste cérebro já fora do prazo de validade. Associei Islander à saga de Elric.
Não faz mal, o Elric comprarei depois 😁

Também percebi que no catálogo da Arte de Autor, este não é o primeiro trabalho desta dupla de autores publicado em português. Esta editora publicou deles o livro Sangoma também.

Costumo começar pelo autor dos textos/narrativa, mas hoje vou trocar a ordem.
Corentin Rouge impressionou-me pelo estilo realista, sem ser fotográfico (de que eu não sou fã), um traço fino bem preciso e detalhado, e sobretudo pelos grandes painéis, tanto no mar como nas montanhas Islandesas, são belíssimos. Nota-se o trabalho de casa na investigação daquela grande ilha, das suas aldeias, das suas paisagens. E que paisagens… 😳

O planeamento dos cenários e das cenas de acção é extremamente fluido, melhorando muito a narrativa de Caryl Férey.

E relativamente ao trabalho de Férey… acho a ideia boa, sempre gostei de histórias apocalípticas, mas acho que caiu um pouco na esparrela do preto e branco, do bom e do mau. Tem muita política actual espalhada pelo livro, não que ache isso mau, mas da maneira como são apresentadas as ideias não dá espaço ao leitor para ter a sua opinião, não tem muitas sombras por ali.

Temos no final deste primeiro volume muitas histórias por contar e desenlaçar. A de Liam, que penso que será a chave para toda esta história, e do quem não sabemos absolutamente nada ainda, a do Professor Zizek, que apenas sabemos que possivelmente teria a chave para resolver o problema climático e agrícola, mas que também não sabemos muito, sabemos que se chama Projecto Islander, mas não no que consiste. Por último temos uma personagem abandonada no cais logo nas primeiras páginas: Lívia! Não acredito que não vá acrescentar nada à história no futuro.

Penso que isto tudo são situações a ser exploradas no resto da série.
Posto isto, penso que o cenário tem algo de um possível futuro sombrio da Humanidade, as alterações climáticas poderão levar à fome muitas zonas do globo, e à sua inabitabilidade pela espécie Humana. Seja Europa, seja Austrália, o clima é de todos, e quando ficar “estragado”, vai ser para todos também.

A minha queixa sobre o argumento é mesmo ser muito simplista em determinadas ideias, e que por sua vez leva a que o desenhador caia também nesse simplismo: os maus são feios, os bons são bonitos.

A base do cenário é o fluxo migratório dos habitantes europeus para norte, as zonas ainda minimamente habitáveis são a Escócia e a Islândia.
As personagens principais vêm em dois grupos. O Professor mais as duas jovens que o acompanham e um guia pago para os levar para a Islândia saem do Cais do Havre para essa ilha, mas precisam de desviar o barco, pois o destino seria a Escócia.

O outro grupo está na Islândia. Uma ilha separa por secessionistas no norte, e lealistas no sul. Ambos as partes a extremar a política anti migratória, dividindo a família de Erika politicamente e geograficamente.

E claro, temos o joker desta história que é Liam, que é o único que nas suas fugas consegue conhecer todos os protagonistas deste livro.

Na realidade gostei muito do livro, sobretudo pela arte de Corentin, são 160 páginas que ninguém se vai arrepender de ler. Agora temos de esperar pelo próximo, nesta série apresentada para três tomos.

A edição da Arte de Autor está imaculadamente boa. Capa dura, papel muito bom e a impressão é excelente e de acordo com a qualidade do papel. 


 





Argumento: Caryl Férey
Desenho: Corentin Rouge
Edição: Cartonada
Número de páginas
: 160
Impressão: Cores
Formato: 232 × 310
PVP: 33€
Editor: Arte de Autor

 









Boas Leituras

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Final Cut

 



"Apetece-me ficar a olhar para a torradeira cromada e perder-me para sempre"
                                                                                                                          - Brian

Existe um livro que eu nunca comprei no original (inglês) porque sempre tive a esperança de que fosse publicado em Portugal, numa das inúmeras colecções de “novelas gráficas” da Devir, mas nunca tal aconteceu, embora tivesse TUDO para figurar numa delas. Infelizmente o autor não é espanhol (sarcasmo), portanto logo aí perde muitas chances de fazer parte numa desses colecções. Estou a falar de Black Hole de Charles Burns.

A arte desse livro sempre me fascinou, e a história tem uma premissa noir que eu adoro. Mas enfim, um dia destes tenho mesmo de o comprar no original, porque há muito tempo (tempo demais) que tem lugar reservado nas minhas estantes.

Então li a notícia da publicação de Final Cut pela ASA e fiquei com meia dose de felicidade, visto que sempre pensei que Black Hole fosse o livro introdutório por excelência de Charles Burns.

Mas não aconteceu assim. A ASA publicou em Fevereiro deste ano esta obra de Burns, que remonta a 2024 no seu original. Esta edição da ASA, Final Cut, é a compilação dos três livros da série que saiu com o título Dédales (1, 2 e 3). Começou a ser publicada pela Cornélius (França) em 2019 e conclui em 2023 com o 3º volume.

Voltando ao autor. Tem um estilo gráfico e uma qualidade que me fascina, sobretudo no preto e branco. Daí esta minha fixação com a obra Black Hole.

Burns é um autor já com alguma idade, vai fazer 71 anos este ano, e o incrível é ele conseguir contar histórias sobre jovens que procuram uma direcção na vida, mas colocando-se com uma visão bastante precisa dos anseios, desejos e problemas próprios da idade, como se ele próprio fizesse parte do grupo, e não como um adulto experiente contando histórias sobre esta etapa pós-adolescente.

Em Final Cut conta-se uma história com duas narrações, a de Brian e a de Laurie.
Brian é um rapaz brilhante, mas extremamente inseguro, mostrando alguma percentagem de autismo, ou simplesmente estados depressivos, e embora nunca fosse dito qual era o seu problema, sabemos que não está a tomar a “medicação” e que se alheia do mundo com muita frequência.
É um mundo complicado o de Brian, vive e cuida de uma mãe com problemas de adição e comportamentos de insanidade mental.

A sua vertente artística é muito acentuada pela fraca delimitação entre o real e a fantasia, e os seus desenhos e edição de filmes são a prova disso. Brian respira filmes de terror “série B” por todo o lado, todos os filmes que faz com o seu amigo Jimmy são muito baseados em filmes deste género, e um deles (Invasion of the Body Snatchers) vai servir de fundo à sua última criação.

Laurie é uma bonita jovem, com o cabelo de um ruivo deslumbrante, embora não faça ostentação da sua beleza. Tem muitas dúvidas iniciais sobre o rumo da sua vida e sente-se muito intrigada por Brian. Os seus desenhos, a sua “loucura”, as suas mudanças de humor fazem-na aproximar dele.
Irá ser a estrela do filme de Brian e Jimmy, embora aquele seja um projecto de que ela não se sente segura de que irá realmente gostar, mas a jovialidade de Jimmy, a estranheza de Brian e as loucuras da amiga Tina fazem-na aceitar.

No fim esta é uma história tão antiga como a Humanidade. Brian ama Laurie e não lho consegue transmitir. Laurie não ama Brian e descobre caminhos diferentes para percorrer na estrada da vida.
Mas no fim, é Brian que decide o final da relação, ou não fosse ele o editor… Final Cut é o título certo.

Claro que isto foi simplista, o livro é grande, denso e cheio de nuances psicológicas onde dançamos grande parte das vezes na fronteira entre o real e o irreal da psique de Brian e Laurie.

Tudo isto assenta num trabalho artístico de alta qualidade! Tudo é bom no traço de Burns, os enquadramentos são maravilhosos, enfim… só pegando no livro e olhando é que irão perceber do que eu estou a falar. Tenho a certeza que qualquer pessoa que passe numa livraria, e abra este livro, se vai sentir extremamente tentada a comprá-lo apenas vendo a arte de Charles Burns.

Já agora o final do livro não é daqueles que eu gosto. Ok, é um final. Mas é um final que sabe a pouco e bastante abrupto. Nas páginas finais andei folha para trás, folha para a frente, à procura de algo porque senti que falta ali qualquer coisa que “acabe” mesmo o livro. Não encontrei 🤷🏻

Esta edição em capa dura da ASA é muito cuidada. A gramagem e o tipo de papel são completamente adequados à cor e desenho de Burns. Não achei nenhuma falha nesta edição, inclusivamente as guardas deste livro estão maravilhosas.
O pecado do livro está na má tradução de títulos de filmes existentes no mercado, que é uma coisa que não faz sentido tipo "Os Invasores de Corpos" (Invasion of the Body Snatchers) “A Última Sessão de Cinema” (título brasileiro) em vez de “A Última Sessão” (The Last Picture Showrelativos a filmes que são importantes para todo o cenário e enquadramento desta obra.

Deixo aqui o trailer do filme de 1978, Invasion of the Body Snatchers:



Quem ler o livro irá perceber porque coloquei este trailer 😉

O Leituras de BD recomenda este livro

 

Boas leituras