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segunda-feira, 2 de julho de 2018
O Regresso da Disney a Portugal - Review e Opinião
Passado um mês do regresso das revistas Disney às nossas bancas, chegou a altura de fazer uma análise às revistas que já saíram, e deixar a minha opinião sobre esse retorno.
Continuo a ser um fã do universo Disney aos quadradinhos, e sempre me custou um pouco ver o nosso país sem uma publicação regular nas bancas. A editora Goody veio mudar isso tudo, e decidi analisar este regresso das revistas, algo que aconteceu no começo de Junho.
As revistas mantém as 132 páginas, mas melhoraram substancialmente a qualidade da gramagem tanto na capa, como no papel do miolo. Eu pelo menos gostei bastante dessa mudança, gosto da sensação nos dedos ao folhear estas novas revistas. Em termos técnicos, passou-se de Couché 150g para Couché 170g na capa, e no miolo o papel melhorado de jornal de 56g, deu lugar ao papel offsetet de 70g.
Continua a sair às terças, alternando os três títulos existentes, sendo que a ordem ficou por Mickey, Tio Patinhas e Pato Donald. Antes de me debruçar sobre as revistas em si, devo realçar o que, para mim, melhorou neste regresso, o facto de que cada revista traz somente histórias relacionadas com o universo da personagem titular. Era uma das coisas que mais me irritava, ver histórias do Mickey na revista do Donald, e vice versa.
Comecemos pelo Mickey #4, aqui iremos encontrar uma história com um mistério por resolver, uma aventura no tempo, uma história clássica com os sobrinhos e uma divertida envolvendo boa parte do seu elenco secundário. Começo por esta, já que foi a que mais me agradou nesta edição.
Sou fã do Ranulfo, e esta história de Casty soube representar bem a rivalidade entre os dois, com momentos de bom humor e uma arte bem agradável. Em arte esta revista foi do meu agrado, a primeira história mostrou um Mickey bem moderno, numa aventura interessante, com um pequeno mistério a mistura. A história com os sobrinhos é bem clássica, o que é normal, já que é da autoria de Paul Murry.
A história da viagem no tempo não foi do meu agrado, mas se pensar que numa revista, só não gostei de uma história, o saldo é francamente positivo. E para quem é fã do rato, deve ter sido agradável ver só aventuras com este pequeno herói.
Adoro o Tio Patinhas, e nesta revista há de tudo um pouco, adoro a história rápida e bem divertida com o forreta, o Donald e o Peninha, o regresso do Ludovico (embora como narrador), e apesar da primeira história não ter sido a melhor da saga dos Milhões, foi no entanto uma aventura divertida.
Tenho de falar de uma bela surpresa, uma história da autoria do grande Saidenberg, envolvendo o Superpateta e a Maga Patalógika. Temos ainda aventuras do Professor Pardal e do Donald, dando-nos assim uma revista só com patos. Como curiosidade, sabiam que existe uma história do grande Don Rosa?
é muito curta, mas a qualidade está lá, apresentando os Ducktales numa mini aventura.
Este Donald #5 traz para começar uma mega aventura do Superpato, são umas 60 páginas, com uma arte e argumento que não fazem o meu género, mas onde reconheço qualidade, e acho que deve ter feito as delícias de muitos.
Temos uma aventura curta do Zé Carioca, de Fernando Bonini, que acaba por saber a pouco, tais as saudades desta personagem, que já merecia uma edição especial, esperemos que a Goody ache isso também.
A história da casa assombrada é uma das melhores que li nos últimos anos, com uma arte interessante e um Donald e sobrinhos a viverem um aventura sobrenatural com momentos de grande interesse.
Volto a dizer, que o facto de cada revista trazer aventuras relacionadas somente com as personagens principais, é uma excelente conquista, e a qualidade das histórias apresentadas, demonstra preocupação dos editores.
Por isso trata-se de um regresso positivo. e do qual podemos esperar grandes coisas. Por isso, já sabem, quando chegar a terça-feira, chegou também a altura de comprar uma revista Disney, numa banca perto de si.
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Autores BD: Len Wein
O meu primeiro contacto com Len Wein, foi numas histórias da Liga da Justiça, uma fase que apreciei bastante, e depois comecei a ver que o seu nome aparecia em outras revistas que lia, como Hulk ou Aranha, percebendo que este seria um autor ao qual deveria começar a prestar atenção.
Para além de ter escrito em títulos como Batman, Homem-Aranha, Hulk ou Liga da Justiça, Wein ficou também conhecido por fazer um bom trabalho como editor, de onde se salienta a mini Camelot 3000, revistas de linha como Novos Titâs, Batman e os Renegados, ou aquela que é considerada a melhor obra dos quadradinhos, Watchmen. Ajudou também a criar personagens como Wolverine, Noturno, Tempestade, Colossus, Monstro do Pântano, Human Target e Lucius Fox, entre tantos outros.
Leonard Norman Wein nasceu a 12 de Julho de 1948 em Nova York, e segundo o próprio, tendo tido uma infância onde ficava doente constantemente, os comics eram a sua companhia, e desenvolveu por esse género uma grande paixão. Mais tarde, ele e o seu amigo Marv Wolfman, iam desenvolvendo essa paixão com os seus trabalhos em fanzines, numa fase em que Wein demonstrava mais interesse em ser um artista do que um escritor.
Mas isso tudo mudou quando ele e Wolfman foram contratados pela DC, no final dos anos 60, e começou então a escrever revistas para a companhia. No começo, Wein andava pela linha de romance, terror, títulos de western ou até revistas relacionadas com programas de TV como Star Trek. Foi no começo dos anos 70 que o autor começou a escrever títulos de super heróis, com a sua estreia a acontecer no Demolidor #70, com a ajuda do escritor/editor Roy Thomas, tendo tido depois esporádicas passagens por títulos como Supergirl, Flash, Superman, e em 1971 cria, em conjunto com o artista Bernie Wrightson a personagem Monstro do Pântano, que viria rapidamente a ganhar uma revista própria.
O seu trabalho com a personagem chamou a atenção de todos, e foi-lhe então dada uma oportunidade para escrever a principal equipa da DC, a Liga da Justiça, com arte de Dick Dillin. e fez um trabalho competente, com constante utilização de personagens da Sociedade da Justiça e reintroduzindo grupos como Seven Soldiers of Victory ou Freedom Fighters.
Nessa altura começa também a escrever regularmente para a Marvel, tendo tido passagens longas por títulos como Marvel Team-up, Hulk e Homem-Aranha. Na sua passagem pelo golias verde, Wein deu destaque ao antagonismo entre Banner/Hulk e Glenn Talbot, revitalizou personagens como Doc Samson e co criou o Wolverine. Já no Aracnídeo, o autor apresentava um Parker divertido, e soube escrever como poucos, diálogos bastantes engraçados enquanto o Aranha enfrentava os seus inimigos.
O romance floresceu nas páginas do Aranha, já que o autor criou casais e personagens como Liz Allen, Betty Leeds e até JJJ encontraram o amor, isto tudo durante a sua fase pelo cabeça de teia. Ao contrário de Conway, que criou diversas personagens para o título, Wein reutilizou vilões que há muito não apareciam na revista, desde o Rei do Crime ao Shcoker, passando pelo Tinkerer ou Silvermane. Mesmo assim ainda criou algumas novas personagens, como o vilão Rocket Racer, que é um bom símbolo do humor apresentado pelo autor na sua passagem pelo Aranha.
Mas foi em 1975 que o autor deixou a sua marca na Marvel, co-criando uma série de personagens com o artista Dave Cockrum, com as quais revitalizaram o grupo de mutantes X-Men, começando uma caminhada que levaria a equipa a ser o título mais vendido da companhia. Curiosamente pouco tempo depois, em confronto com Jim Shooter segundo algumas pessoas, ele deixa a Marvel e volta para a DC, tanto como escritor, como também na posição de editor.
Em 1979, na sua primeira história em Batman, cria a personagem Lucius Fox, e fez algumas histórias interessantes em conjunto com o artista Marshall Rogers, para além de ter escrito a primeira mini do Homem morcego, The Untold Legends of Batman. Em Lanterna Verde, ajudou Dave Gibbons num título que voltava a ter algum destaque, para além de ter sido o escolhido para escrever o crossover entre Batman e Hulk.
Nos anos 80, ficou bem conhecido como editor, o seu nome aparecia em revistas que estavam em destaque, como Novos Titãs ou Batman e os Renagados, e fez parte de projectos como Camelot 3000 e Watchmen. Editou também Alan Moore na revista do Monstro do Pântano, numa passagem de testemunho extremamente bem sucedida. Escreveu ainda um revival do Besouro Azul, e os diálogos da mini série Lendas, ajudando John Ostrander nessa saga que tentava resolver as pontas deixadas soltas em Crise nas infinitas terras.
Nos anos 90, para além de uma passagem como editor na Disney, Wein escreveu para inúmeros programas de televisão, especialmente séries de animação, como Batman, Homem-Aranha, X-men, Phantom 2040, Street Fighter entre tantos outros. Voltou a escrever alguns comics para a DC já no Século XXI, mostrando sempre algum carinho por algumas das personagens desta editora.
Faleceu a 10 de Setembro de 2017, aos 69 anos, com problemas de coração, deixando para sempre um legado nas duas grandes companhias, que ninguém poderá ignorar.
quinta-feira, 10 de agosto de 2017
Máquina do Tempo: as histórias "O que aconteceria se.. ?" (What If?)
Tenho saudades dos What If? da Marvel, sempre gostei de realidades paralelas, de se imaginar um final diferente para algo já feito, e isto caía perfeitamente nestas minhas preferências. A editora Abril mostrou-nos estas aventuras sobre o título "O que aconteceria se..?", e a dada altura a popularidade era tanta que até chegaram a ser publicados Grandes Heróis Marvel, só com esta temática. Muitas vezes a capa de revistas populares, como o Hulk ou o Capitão América, traziam a chamada para uma destas histórias, sabendo que isso iria chamar a atenção do público.
O primeiro volume de What If? foi lançado em 1977, com o primeiro número a trazer o Quarteto Fantástico, mostrando o que aconteceria se o Homem-Aranha tivesse se juntado ao grupo. Inicialmente as histórias iriam se desenrolar num universo alternativo, conhecido como Terra-616, mas rapidamente criaram um multiverso, com inúmeras terras para acomodar os diferentes destinos de personagens que conhecíamos tão bem.
O meu primeiro contacto com uma história deste género, foi na revista do Incrível Hulk, que trazia na capa "O que aconteceria se o Wolverine tivesse morto o Hulk?"e fiquei logo fã. A minha colecção foi crescendo, e conforme comprava as revistas mais antigas, ficava contente quando apanhava logo na capa, menção a que iria trazer uma destas histórias. Algumas das minhas preferidas foram esta primeira que li, a do Conan andar por cá nos dias de hoje, do Wolverine como agente da SHIELD (e que capa fantástica essa) e a do Capitão como Presidente dos Estados Unidos.
Cheguei a comprar, muitos anos depois, alguns dos originais americanos, e desses dos que gostei mais foi de um a mostrar o Tony Stark como "Dr Estranho". A Marvel lançou nove volumes desta série, o primeiro entre 1977 e 1984 (47 números), o segundo entre 1989 e 1998 (114 números), e entre 2005 e 2010, saíram os restantes volume, por norma com 5/6 números por ano e focando-se em finais de sagas da companhia.
O mais interessante foi ver que alguns destes conceitos acabaram por se tornar realidade, o Aranha chegou a ser membro do Quarteto por exemplo, a do clone do Aranha ter sobrevivido, entre outras. Depois era sempre giro ver heróis como vilões, ou vice versa, e lembro-me de achar bastante piada a uns humorísticos, que consistiam em pequenas tiras com chalaças fantásticas.
As histórias do primeiro volume, traziam o Vigia Uatu como narrador, e nestas cómicas a premissa era, "o que aconteceria se o Uatu fosse um comediante?", e depois as coisas eram como piadas de um cómico em stand up, que deu origem a tiras bem divertidas.
Existiram alguns números com mais do que uma história, uma delas um pouco mais curta, ou então com umas 3 ideias encaixadas logo numa historia, como a de que mostrava 3 pessoas diferentes a receber o poder do Homem-Aranha. Algumas dessas ideias, ou universos alternativos, foram revisitados anos mais tarde, em revistas como a do Quasar, ou então reimpressas em diversas edições.
Homem-Aranha, Wolverine e o Quarteto foram as personagens mais usadas, e a dada altura a revista era usada mais para dar finais alternativos a mini séries ou sagas de sucesso, perdendo um pouco a essência de mostrar diferentes versões da mesma personagem, ou de alterar apenas um evento na vida desse herói/vilão. Quem mais era fã?
terça-feira, 10 de novembro de 2015
A Palavra dos Outros:
Autores: Tony Sandoval
Tony Sandoval é conhecido pelos temas oníricos em que baseia as suas obras, e é exactamente neste ambientes que a sua arte encontra a melhor expressão. Estão editados dois livros deste autor em Portugal pela Kingpin Books, e assim sendo, a pessoa mais indicada para escrever sobre Tony Sandoval será o editor Mário Freitas.
Para verem os outros posts de Mário Freitas no Leituras de BD basta clicar no nome dele.
TONY SANDOVAL
As Serpentes da Imaginação
A obra de Tony Sandoval é marcada pelas mitologias, pelos cheiros, pelos sabores das vilas e costumes do México da sua infância. Origens que se cruzam com a Europa cosmopolita que o acolheu, com o Gótico e o Doom Metal que o inspiram e que ritmam a sua arte. A ingenuidade onírica dos desenhos de Sandoval e a suavidade da sua palete contrastam profundamente com o horror, o grotesco e o absurdo aparente das suas histórias. Porque o artista, tal como as suas personagens, clama incessantemente pelas bizarrias que procuram, em vão, esconder-se para além do limiar da imaginação.
Nascido há 42 anos na pequena cidade de Obregón, cedo o autor percebeu ser dotado de uma criatividade invulgar que o arrastava para construções narrativas bizarras que pululavam na sua cabeça. Parte para a Europa em meados da década passada e, influenciado pelas lendas e culto dos mortos tão comuns no seu país, por óbvios pastiches lovecraftianos e pelos acordes pesados da música que o inspira, inicia em Barcelona a sua colaboração com editoras espanholas, lançando as primeiras edições de El Cadáver y El Sofá e Nocturno, onde a sua obsessão pela morte e pela libertação do espírito criativo se tornam desde logo marcantes.
Em Paris, conhece o suiço Pierre Paquet, seu editor desde então, que dá a conhecer as obras de Sandoval ao público franco-belga. Em 2010, juntos colaboram em Un Regard Par-dessu L'Épaule, escrito por Paquet, num dos raros casos em que o autor mexicano ilustra uma história de outrem. Já com a reputação cimentada, é em 2012 que desponta para o estrelato com a nomeação de Doom Boy (Paquet, 2011) para o Grande Prémio de Angoulême, ano que marca também a sua primeira visita a Portugal, por ocasião da 3ª edição do Festival AniComics Lisboa, em Maio. Doom Boy sedimenta a maturidade artística atingida com Les Bêtises de Xenoxiphérox (Paquet, 2011), reforçando a simbiose entre o traço fino e solto a caneta e as cores suaves aguareladas que lhe dão corpo. Uma arte invulgar, única, feita de corpos esguios, fluídos como um líquido e dotados de enormes cabeças ovais e expressivas; um estilo singular, peculiar, dificilmente colável a influências evidentes e verdadeiro sinónimo de um artista ímpar. A história de ID, um jovem guitarrista mediano que se vê subitamente tocado por um talento divino, não parece diferir em muito da Marta de Les Bêtises...
que faz um pacto com uma bruxa em troca de aptidões literárias. Porém, no que a decisão de Marta acaba por libertar o inevitável mal extra-dimensional das histórias de Sandoval (por muito que, neste caso, a personificação do mal seja uma criatura ridícula semelhante a uma pequena baleia voadora) com consequências devastadoras para a própria e para os que a rodeiam, a estrela que se acende em ID despoleta aquele que é, talvez e paradoxalmente, o menos apocalíptico dos livros do mexicano. A partir da premissa clássica da morte como catalisador, Doom Boy reflecte a "explosão" de ID como catarse do desaparecimento prematuro da sua amiga Anny, transformando-o numa lenda urbana do Doom Metal (a tal inspiração musical predominante do trabalho de Sandoval), um génio incógnito cujas gravações seminais se propagam e mitificam de ouvido em ouvido. O talento como alma eterna.Em 2014, As Serpentes de Água marca a estreia da edição em português do autor (então a viver em Berlim) e o seu regresso a Portugal, por ocasião do lançamento do livro no Festival Internacional de BD de Beja. Mais do que qualquer outra das suas obras, As Serpentes de Água sintetiza as temáticas recorrentes das obras de Sandoval. O Rei belo de uma das facções do domínio da imaginação é aprisionado pelos seus opositores e transformado num polvo negro que esperará uma eternidade pela salvação; pela recuperação da verdadeira forma; pelo reacender da centelha da criatividade. Presentes em boa parte dos livros de Sandoval e símbolo comercial da colecção Calamari que o próprio dirige na Paquet, os cefalópedes assumem-se aqui, em definitivo, como Reis no gatilho criativo do mexicano. As Serpentes de Água é um clássico “coming of age”, um livro sobre o amadurecimento e libertação sexual, um grito libertador contra as grilhetas que o mundano e as pessoas comuns impõem aos espíritos livres. Mila é uma menina especial capaz de ver Agnès, aparentemente morta há 11 anos, mas que estará afinal prisioneira na dimensão alternativa da imaginação em que tanto da narrativa clássica de Sandoval se desenrola. Esta dimensão onírica, lar de anjos e demónios e palco de guerras milenares entre o Céu e a Terra, mais não é que o espaço privilegiado de cada personagem no seu combate pela individualidade, pela fuga à banalidade que tanto da realidade e dos seus protagonistas encerram.
Em Mil Tormentas (Kingpin Books, 2015, em estreia mundial simultânea com as editoras espanhola, italiana, suíça e polaca), o autor reforça a unicidade do seu universo autoral, cruzando subtilmente referências dos seus últimos livros e praticamente revelando que o domínio da imaginação (onde residem o “céu” e o “inferno”, consoante as crenças de cada um) é um, e um só, em todas as suas histórias. À semelhança de Mila, Lisa é uma adolescente solitária com uma obsessão coleccionista que desperta a desconfiança e a crueldade das outras crianças, e uma curiosidade inerente que a mergulhará na tal dimensão alternativa, onde sonho e realidade, vida e morte, se misturam e confundem. O equilíbrio é precário, e entre roubos compulsivos e oferendas de paz, a conclusão das narrativas de Sandoval aponta muitas vezes para o apaziguar dos demónios internos, mais até do que dos ficcionados. Não será por acaso que os protagonistas das suas histórias são, em regra, adolescentes e jovens adultos diferentes ou solitários que se debatem com as angústias e dúvidas existenciais típicas da idade. A excepção a esta regra surge em Les Échos Invisibles - editado em 2 volumes e em que a história e layouts de Tony Sandoval são servidos pela belíssima arte da italiana Grazia LaPadula – onde o protagonista, Baltus, é um fotógrafo de cerca de 40 anos, cuja vida desaba após a morte prematura da sua mulher. Mais uma vez, a morte servirá de catalisador para a descoberta de um dom, que colocará o protagonista em rota de colisão com as expectativas e perspectivas comuns sobre a vida, sobre a morte e sobre potenciais renascimentos, reais ou criativos.
Em termos artísticos, o recente Mil Tormentas é menos denso que o seu antecessor, predominando a caneta e suaves cores pastel, pontuadas apenas, aqui e ali, pelas aguarelas clássicas de Sandoval. Esta flexibilidade visual das suas obras contribui para o reforço de uma sensação de desconforto, de incerteza, quer para as suas personagens, quer para o próprio leitor, bastas vezes prisioneiros numa fina, quase imperceptível, membrana entre o sonho e a realidade. Aliás, procurar uma lógica narrativa nas histórias de Sandoval torna-se um exercício inútil. A sua abordagem insere-se antes em fogachos de sensações, em pinceladas de intenções, com uma leitura e coerência interna muito próprias que caberá ao leitor decifrar. Sandoval não é David Lynch, mas partilha com o cineasta a intercepção rotineira entre a realidade e o sonho, entre o presente narrativo e saltos temporais nem sempre perceptíveis numa primeira leitura. Mas no que Lynch é intenção, é ciência calculada, Sandoval é instinto, é pureza narrativa.
Tony Sandoval respira arte. Diria que também a transpira por todos os poros. Compartilhar com ele uma qualquer mesa de café ou restaurante é vê-lo, inevitavelmente, a rabiscar algo de belo no seu inseparável bloco de notas ou até numa toalha de mesa de papel. Se a sua infindável criatividade é o alicerce da sua arte, as pinceladas a aguarela, a café, ou até a cerveja, são a palete que dá cor a cada momento da sua existência terrena. Porque Tony sabe que um dia o seu corpo partirá, mas a sua alma e o seu talento permanecerão ad aeternum na tal dimensão conturbada da imaginação, prontos a dar mão a criadores hesitantes, que anseiem ou desesperem, até, por uma qualquer inspiração divina.
Texto: Mário Freitas
Boas leituras
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
A Palavra dos Outros: Earth 2
Luís Sanches tem aqui a segunda participação na rubrica "A Palavra dos Outros". Depois do Manhua (Banda Desenhada chinesa) Feng Shen Ji, agora é a vez dos comics: Earth 2
Fiquem então com o Luís Sanches:
Antes de mais quero começar por dizer que sempre fui um leitor Marvel. Sempre li muita coisa que adorei da DC, mas a minha droga mensal predominantemente vinha da casa das ideias. Quando era miúdo, X-men, Superaventuras Marvel, Heróis da TV, Conan, e até o Aranha (colecção do meu irmão) eram tão importantes para mim como alguns membros da família. É claro que também tinha contacto com a DC, mas agora que olho para trás, reparo que se resumia principalmente a mini-séries, e eventos especiais que eu gostava bastante, mas que não me levavam a seguir os personagens mensalmente. A única excepção foi a brilhante Liga da Justiça de Keith Giffen, a única BD (juntamente com a colecção do Conan) que sobreviveu aos tempos em que vendia BD sempre que precisava de dinheiro na adolescência.
A razão desta introdução é para perceberem que comecei a ler Earth 2 sem saber nada ou quase nada dos seus personagens, e que portanto, alterações aos personagens que possam ter ofendido antigos leitores, a mim nem sequer me ocorreram.
Earth 2 – New 52
Este mundo não é aquele que conhecemos. Super-Homem, Batman, e a Mulher Maravilha caíram a impedir uma invasão de Apokolips. Alguns continentes foram devastados e o futuro é mais incerto do que alguma vez foi. E agora?
A premissa é mais ou menos esta. A mim, agarrou-me.
Para começar vou falar da arte. Espectacular. Das raras vezes que pego em revistas de super-heróis é isto que espero. Arte cheia de pormenor mas ao mesmo tempo extremamente expansiva. Nicolla Scott, na minha opinião, fez também um trabalho excelente no que toca a modernizar o aspecto dos personagens. Jay Garrick tem um novo design que na minha opinião está muito bom. A arte é de qualidade extremamente alta e consistente e conseguiu-me fazer nunca largar a história que estava a seguir. Quero só também referir o layout das páginas. Quantas vezes neste tipo de BD vemos o artista, por muito bom que seja, a enfiar tanta coisa numa página que não sabemos para onde olhar primeiro, ou que nos tira o contacto com o que se está a passar. Pois bem, com Nicolla Scott isso não acontece. Esta série está cheia de potenciais posters ou walpapers para o desktop mas o sentido de design do artista trás ordem a tudo e nunca nos deixa a vaguear pela página. Como disse, é isto que espero de uma revista de super-heróis bem feita.
Em relação à história, e aqui é que parecem estar os problemas para os leitores mais antigos, até agora estou a gostar bastante. Sim, Alan Scott é gay, mas pensei que fosse algo focado nos livros, visto ter lido tanta revolta sobre isso. No entanto, essa parte da história é quase, aliás, é menos do que uma nota de rodapé. Dos vinte e poucos números que li, isso nunca é algo focado ou sequer importante para a história. Pelo contrário, o que é focado é um tipo de Lanterna Verde que eu não conhecia e que adorei. Uma força da natureza que depende do planeta para sobreviver e que tem um sentido de vingança enorme. Adorei mesmo.
Jay Garrick foi o outro personagem que me agarrou a esta revista desde o principio. Tem um idealismo e uma forma de estar que é raro ver-se no mundo de hoje. Faz o bem porque, bem, porque é o que é suposto fazer-se. Não percebe sequer que possa ter outro tipo de comportamento. Um benfeitor algo ingénuo, mas não iludido, que nos ganha com essa simplificação de tomada de decisões. James Robinson conseguiu pegar numa característica que quase sempre dá uma dimensionalidade óbvia ao personagem e tornou-a em algo que a fortalece em termos de interesse perante todas as outras que a rodeiam.
A série tem um ou dois pontos fracos, mas irrelevantes e sem peso nenhum quando comparados com os pontos fortes. A DC agarrou-me com o que se está a passar na Earth 2. É algo a não perder sem duvida. Não sei se o resto dos Novos 52 estão com esta qualidade, mas se estiverem, a Marvel tem de melhorar o que anda a fazer e depressa.
Texto: Luís Sanches
O Luís Sanches também possui um blogue onde coloca os seus desenhos e pinturas. Façam uma visita para o conhecerem melhor!
A Tartaruga Celeste
Boas leituras
quarta-feira, 10 de setembro de 2014
A Palavra dos Outros - Série TV: Arrow - 1ª e 2ª Temporadas
É também a primeira entrada a sério de produtos televisivos no LBD, o que não deixa de ser interessante!
Vejam vocês o que o Manuel Jesus tem para dizer sobre a série Arrow cuja popularidade não pára de aumentar. Para mim a melhor série TV de sempre com foco num super-herói!
Arrow
O Arrow vai recomeçar no dia 8 de Outubro.
Nas vésperas de se iniciar a transmissão da 3ª temporada, acabei de ver em modo maratona as duas primeiras temporadas da série e na opinião de alguém que não perde tempo a assistir à parte das cenas dos próximos capítulos e tem já pouca paciência para esperar pelas emoções da semana que vem, esta é a forma ideal para se ver uma série tão empolgante como Arrow.
É sem dúvidas das melhores se não talvez a melhor série que já se fez sobre um personagem ou personagens dos universos DC/Marvel. O argumento não se deixa prender à mitologia tradicional do herói Oliver Queen ou o Arqueiro Verde e mistura elementos do personagem num cenário de realidade adaptada aos dias de hoje com ingredientes de ficção científica, intriga política, corporativismo económico e ameaças terroristas e tudo isto muito bem temperado com o dissecar de relações complexas que se vão desenvolvendo entre os vários personagens.
A história balanceia-se entre os acontecimentos em tempo real e um passado misterioso ocorrido num período de 5 anos que coincide com o tempo em que Oliver Queen ou o Arrow esteve desaparecido e dado como morto. Cada temporada desenvolve assim um ano no presente e um ano no passado dando a entender que esta será, assim não seja prematuramente cancelada, uma série com a duração de 5 anos onde os argumentistas querem contar uma história com princípio, meio e fim.
Nas duas primeiras temporadas podemos assistir a episódios fechados em si mesmo e a arcos de histórias ao mesmo tempo que se vão desenrolando as tramas da acção principal da temporada quer no presente quer no passado. O tempo que vai passando ao longo dos episódios na temporada é muito bem marcado pelos argumentistas com o cuidado por exemplo de referir festividades como o Natal ou de referenciar acontecimentos ocorridos em episódios anteriores com a sua devida etiqueta temporal.
Não é necessário conhecer o universo DC para se gostar de Arrow, aliás penso que os argumentistas fizeram questão em escrever histórias capazes de ser sobretudo apreciadas por leigos ou por neófitos nestas andanças dos super heróis mas não se privam ainda assim, de rechear os episódios com ovos de Páscoa e piscadelas de olho aos gourmets e coca-bichinhos dos Comics e mesmo aos Geeks em geral indo ao ponto de aproveitar a presença da actriz Summer Glau no elenco para recriar uma cena famosa de Serenity e relembrar que há coisas que envelhecem bem como um bom vinho do Porto.
Não deixa de ser notável que os produtores tenham apostado num personagem completamente afastado do mainstream do universo DC e aparentemente terem conseguido construir com ele uma plataforma de lançamento para outras séries com outros personagens bem maiores e populares, alguns confirmados, como o Flash que é introduzido como um personagem secundário num par de episódios do Arrow e agora com direito a uma série autónoma com o episódio de estreia anunciado para o próximo dia 7 de Outubro, ainda antes de Arrow e já com crossovers planeados entre as duas séries. Outros aparentemente se estão a perfilar e coscuvilha-se nos bastidores na possibilidade de uma série do Suicide Squad que também apareceram num par de episódios e de Ted Kord o Escaravelho Azul que tantas vezes foi referenciado nas duas primeiras temporadas e que dizem as más-línguas terá um papel de pleno direito na terceira.
Arrow está longe de ser uma história para o público juvenil, aliás a classificação para maiores de 15 dos DVD’s da primeira temporada é generosa. Há violência explicita e sexo implícito quanto baste e na segunda temporada até escapam um ou dois palavrões que lhe devem fazer valer a classificação para maiores de 18, isso ou um certo beijo tórrido dado pela herdeira do demónio e mais não posso dizer para não me chamarem de spoiler…
Nem tudo é perfeito na história, nalguns momentos dá ideia de que os argumentistas vão puxando por um fio sem saberem muito bem ainda onde é que aquilo vai dar e depois lá dão a volta à coisa e a coisa acaba por se compor sem se dar muita conta da trapalhada. Por outro lado não é um exagero dizer que o verdadeiro poder de Oliver Queen em Arrow não é ser um Arqueiro vestido de verde que dá porrada na malta que se porta mal mas sim a capacidade de conseguir dormir com todos os personagens femininos da série, um poder que é tão usado que às tantas se torna ridículo. Depois há ainda o desperdício na utilização de alguns personagens com imenso potencial como Shado, Moira Queen ou Roy Harper e este último até dá dó de tão mal tratado que tem sido, vamos ver o que o espera nesta nova temporada.
Curioso é também perceber que os argumentistas tiveram o cuidado de no final da segunda temporada deixarem todos os personagens em situações e espaço para poderem justificar o seu desaparecimento da série sem beliscar a história. Afinal isto de renegociar contractos com os actores também tem a sua arte…
Resta-me agora a dúvida se vou começar a ver a terceira temporada de Arrow já em Outubro ou se vou esperar pelo final para mais uma maratona. Estou muito inclinado pela segunda que a idade não perdoa e o coração tem de ser poupado para emoções menos ficcionadas.
Texto de Manuel Jesus
Já agora vou só colocar alguns pormenores sobre a série para completar informação técnica sobre Arrow:
- Stephen Amell - Oliver Queen
- Katie Cassidy - Laurel Lance (novo Black Canary?)
- Caity Lotz - Sara Lance (Black Canary)
- David Ramsey - John Diggle
- Willa Holland - Thea Queen
- Susanna Thompson - Moira Queen
- Paul Blackthorne - Detective Quentin Lance
- Emily Bett Rickards - Felicity Smoak
- Manu Bennett - Slade Wilson (Deathstroke)
- Colton Haynes - Roy Harper
- John Barrowman - Malcolm Merlyn
Claro que isto não foi uma lista exaustiva...
:)
Os criadores da série foram: Andrew Kreisberg, Greg Berlanti e Marc Guggenheim para a CW Television Network.
Foram exibidos 46 episódios divididos por duas temporadas, e como o Manuel Jesus diz logo no início, a 3ª temporada está aí à porta e com muitas surpresas!
Boas leituras
sexta-feira, 18 de julho de 2014
A Palavra dos Outros: Violetta #1
A Sofia Teixeira Amado está a passar muita gente em contribuições para o Leituras de BD! Hoje vamos ter a sua terceira colaboração, e o seu alvo é o primeiro número da nova revista da Goody: Violetta.
A Sofia é fã da série de televisão, tem 10 anos de idade e faz uma crítica extensa a este Violetta #1.
O texto não foi corrigido por mim. Vai como veio, porque a escrita desta minha filha perderia a piada se eu corrigisse. Leiam porque vale a pena!
Obrigado filha.
:)
Violetta #1
(Autor das histórias: Alessandro Ferrari)
A revista tem seis histórias exclusivas nunca vistas na televisão. Eu acho que a revista está recheada de histórias interessantes, com emoção e muita ação e é exatamente por isso que eu gosto dela e a li num ápice!
A primeira história é a minha preferida porque eu acho que é, pronto, que tem muita ação, tem emoção e é divertida. É a história em que a Violetta e a Francesca ficam nervosas porque são chamadas ao diretor, mas não têm razão para se preocuparem porque o António (director) só lhes quer contar que elas foram escolhidas para fazer uma canção para aumentar a reputação do studio 21, mas que só têm uma semana para a fazer.
Antes de falar da próxima história vou falar dos desenhos da primeira história, a desenhadora é a Arianna Rea e eu até acho os desenhos bonitos, mas há desenhos muito estranhos, porque há bonecos estranhos por exemplo a Ludmila está esquisita muito magra, parece um palito.
Na segunda história é o aniversário do Germán e a Violetta fala com um senhor, o Raul que trabalha na loja de antiguidades, para comprar a prenda para o Germán , mas ele tinha ouvido e pensando que ela se ia encontrar com um rapaz, vai atrás dela até ao centro comercial. Quando a Violetta já está no centro comercial, sente que alguém a está a segui-la (e tem razão).
A desenhadora desta história é: Teresa Quezada e sobre os desenho só tenho a dizer uma coisa a dizer: com a cara de lado o Germán parece um macaco! De resto não tenho mais nada a dizer porque de resto os desenhos estão lindos!
A terceira história é sobre a aula da Angie em que a Ludmila e o Marco* têm de cantar uma canção. Como a Ludmila sabe que a Francesca gosta do Marco então aproveita esta oportunidade para a arreliar.
A desenhadora é Arianna Rea , como na primeira história, e nesta também só tenho uma queixa: a Ludmila tem nariz de porco.
*Quem é o Marco? – É a minha única pergunta sobre ele! Porque é que ele aparece na revista, se nem se quer aparece na primeira temporada da série? – Afinal ainda tinha outra pergunta!
Na história seguinte iam fazer um desafio: cantar uma canção que ia estar no seu cacifo de manhã no dia seguinte e iam ter de a decorar até á tarde, depois têm de a cantar em frente dos professores, e provarem que são artistas de verdade! A desenhadora desta história também é a Arianna Rea e nesta acho que os bonecos estão bons, mas o Broadway está esquisito e o Beto também (cara de beringela).
Na quinta história a Violetta, a Francesca, a Camila, a Naty e a Ludmila vão fazer um espectáculo, mas vão ter de cancelar porque o guarda-roupa desapareceu e agora as meninas vão ter de ter uma ideia brilhante para resolver o problema!
A desenhadora é Arianna Rea e a minha única queixa (já me queixei do Beto, e da Ludmila também) é que a Naty tem os lábios muito gordos!
A última história é a que eu menos gosto porque, eu acho, é muito óbvia, li só o início e já sabia o que ia acontecer. A história começa assim: a Violetta recebe uma mensagem do León a pedir-lhe para ela ir á corrida dele de motocross e depois tem um obstáculo. (Óbvio o que ia acontecer acho eu!).
A desenhadora da última história é a Arianna Rea novamente e nesta eu só acho que a cabeça do Gregório (professor de dança) está muito pontiaguda.
Eu acho que esta revista é bem capaz de vender muitas edições porque tem, como disse logo ao início, muita emoção e acção, e são histórias bastante divertidas com desenhos bem feitos (mas demasiado magros) e cores bem escolhidas.
Por: Sofia Teixeira Amado
Tenho a certeza de que se a sua crítica for bem recebida, teremos muitos mais textos desta pequena amante da Literatura e Banda Desenhada.
Violetta é uma revista exclusiva de Portugal e França, tendo sido o seu lançamento conjunto. Parabéns à Goody pela diversificação de produtos.
E por este andar qualquer dia já tenho quem me substitua neste blogue... :)
Boas leituras
domingo, 27 de abril de 2014
A Palavra dos Outros: O dia em que a DC tentou matar a Marvel
Mais uma crónica de Paulo Costa. Desta vez sobre a indústria dos comics na sua transição da Golden Age para a Silver Age.
:)
O dia em que a DC tentou matar a Marvel
Eu pensei se valia a pena escrever isto. História da BD já tem um interesse limitado, história de certas editoras parece só ter interesse quando lida com personagens mais conhecidos, e história da indústria da BD é para um grupo ainda mais restrito. Não fala da arte e não fala de personagens. Mas fala de pessoas e das suas acções, e é por isso que me interessa. Este período da Marvel, poucos anos antes da criação do Quarteto Fantástico, é um que me atrai profundamente. Mas o que tem a DC a ver com a Marvel em 1957?
Foi em 1956 que Martin Goodman fechou a sua própria distribuidora, a Atlas News Company, por motivos financeiros, assinando com a American News Company, uma companhia que tinha o monopólio da distribuição das revistas de má fama, incluindo BD, como a Dell, cuja revista “Walt Disney Comics & Stories” era a mais vendida da época. Devido à facilidade de acesso da ANC aos mercados, a escolha de Goodman, que estava habituado a fazer dumping do seu material, fazia sentido. No entanto, na época, o Departamento de Justiça tinha colocado a ANC em tribunal, sendo uma das motivações o esquema ilegal de vendas por acréscimo (ex: “Queres 10 Marias? Tens que distribuir 20 Burdas”). Era este sistema de vendas, usado pelas distribuidoras associadas às editoras de BD, pulps e soft porn, o verdadeiro alvo da comissão senatorial de investigação dos efeitos da BD na delinquência juvenil, uma vez que, ao contrário desta, era perpetrada por grupos com ligações ao crime organizado.
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| Martin Goodman |
A fim de evitar o desfecho natural, em junho de 1957, os proprietários da American News fecharam as portas da companhia, deixando dezenas de pequenas editoras desamparadas. Uma delas era a Marvel, que ainda não se chamava Marvel (na verdade, Goodman tinha no activo 57 companhias diferentes, todas a operar no mesmo escritório e com os mesmos empregados). Goodman foi ter com o seu velho amigo/colega/adversário/concorrente, Harry Donenfeld, um dos proprietários da National Periodical Publications (mais conhecida como DC), bem como da sua própria distribuidora, a Independent News Distribution. Donenfeld não o deixou distribuir mais que oito revistas por mês.
É aqui que entro no reino da especulação. Donenfeld, o seu sócio na DC Jack Leibowitz, Goodman, Louis Silberkleit, Maurice Coyne (dois dos fundadores da Archie Comics) e Paul Sampliner trabalhavam no mesmo meio havia várias décadas, ora formando companhias de distribuição e impressão uns com os outros, ora vendendo-as (às vezes uns aos outros) e tornando-se rivais com projectos paralelos. Estas constantes trocas eram óptimas para a ‘contabilidade criativa’ que se fazia na indústria dos pulps nos anos 20 e 30. Portanto, em 1957, Donenfeld e Goodman conheciam-se há mais de 20 anos, e o primeiro estava familiarizado com as práticas de negócio do segundo. Goodman era perito em construir fortunas tostão a tostão. Se ficasse impedido de praticar o seu método tradicional de dumping, por vezes com cinco títulos praticamente iguais no que ele percebia ser o tema popular dessa semana, Goodman teria dificuldades em adaptar-se. Afinal, não mudava de táctica há décadas.A DC podia ter algum interesse nisso, para se livrar de alguma concorrência. Muitas das editoras rivais tinham fechado as portas nos anos a seguir à Segunda Guerra Mundial:
-Em 1946, Harry A Chesler tinha deixado de publicar em nome próprio, passando a ser apenas um estúdio.
-Em 1948, a Holyoke deixou de publicar BD para se concentrar no ramo mais rentável das revistas para crianças.
-Em 1950, Victor Fox, um mestre da ‘contabilidade criativa’, encerrou a Fox Feature Syndicate, com dívidas de mais de 800 mil dólares. Fox já tinha estado envolvido em casos de fraude e foi o instigador do famoso caso Wonder Man, uma cópia vergonhosa do Superhomem, criado por Will Eisner por ordem de Fox em 1940.
-Em 1953, a Fawcett Publications saiu de cena devido às baixas vendas, efectivamente encerrando o conflito judicial com a DC por causa do Capitão Marvel (supostamente outra cópia do Superhomem) mas continuou envolvida noutras áreas, nomeadamente livros, uma divisão que, ironicamente, hoje pertence à Warner.
-Em 1954, Bill Gaines e a sua EC Comics foram a primeira vítima dos obstáculos comerciais causados pelas regras da Comics Code Authority, mantendo no activo apenas a revista “Mad”. No mesmo ano, o mesmo aconteceu à Fiction House, conhecida por Sheena, a Rainha da Selva. É preciso recordar que as regras da CCA foram criadas pelas principais editoras (Archie, Harvey, DC e Marvel) precisamente para retirar as revistas destes concorrentes de cena.
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| Harry Donenfeld e Jack Liebowitz |
-Em 1956, Lev Gleason e a Ace Comics de Aaron Wyn tiveram os mesmos problemas que Gaines e foram à falência. No mesmo ano, Ned Pines encerrou calmamente a Standard Comics, continuando ligado à publicação de romances de cordel.
-Finalmente, no início de 1957, a Quality Comics de Busy Arnold também fechou as portas por vendas baixas, vendendo alguns títulos à DC. Outras editoras, como a Crestwood Publications, a Charlton Comics ou o American Comics Group, sobreviveram, mas com uma quota de mercado bem inferior.
-A MLJ já se tinha transformado na Archie Comics, a Harvey estava muito bem de saúde com os direitos dos personagens da Famous Studios (como Richie Rich, ou Riquinho, em português) e ambas tinham sucesso num nicho mais infantil. Apenas a Dell Comics, que não precisava do selo do Comics Code por ter os direitos de publicação de personagens da Disney e da Warner, dominava o mercado e era intocável para a DC, mas nenhuma destas apostava em revistas de guerra, de romance e de aventura.
Nestas circunstâncias, a única grande editora que sobrava no caminho da DC era a Marvel, na época conhecida colectivamente como Atlas. Limitado a oito títulos por mês, Goodman optou por 16 revistas bimestrais, divididas por vários géneros. Personagens permanentes eram poucos, como era normal para a altura. Os títulos escolhidos foram de guerra (“Battle”, “Marines in Battle”, “Navy Combat”), western (“Gunsmoke Western”, “Kid Colt Outlaw”, “Two Gun Kid”, “Wyatt Earp”), humor (“Homer the Happy Ghost”, “Millie the Model”, “Patsy and Hedy”, “Patsy Walker”), romance (“Love Romances”, “Miss America”, “My Own Romance”) e ficção científica (“Strange Tales”, “World of Fantasy”). Alguns destes acabaram substituídos nos anos seguintes.Felizmente para Goodman, a quantidade reduzida de títulos era o que o editor Stan Lee necessitava para se preocupar mais com a qualidade. Surgiram algumas lendas urbanas relativas a esta época. Uma é que Goodman encontrou um armário cheio de arte não usada e impediu Stan de comprar mais material. Na verdade, com o número reduzido de títulos, havia inventário suficiente para encher as revistas durante quase um ano, não era preciso encontrar um armário. Outra é que Jack Kirby chegou ao escritório, encontrou Lee a chorar e este pediu-lhe que salvasse a companhia. Kirby tinha acabado de se desentender com o seu editor na DC, Jack Schiff, e estava à procura de mais trabalho, mesmo que fosse com o homem (Goodman) que o tinha enganado 15 anos antes, e Lee precisava de encontrar alguém para substituir o falecido Joe Maneely como criador principal de conceitos. E, finalmente, Lee tinha pensado em deixar a BD e mudar-se para objectivos mais literários. É possível, mas Lee não tinha motivos para se preocupar com alternativas de emprego. Tinha à sua disposição artistas como Kirby, Ditko, Ayers, Sinnott, Adkins e Heck, tanto Kirby como Ditko eram capazes de emprestar às antologias de terror e ficção cientifica a identidade necessária para se diferenciarem da concorrência, e Stan Goldberg continuava responsável pela arte do perene título de humor adolescente, “Patsy Walker”. Financeiramente, não fazia muito sentido para Lee sair da companhia, embora, criativamente, a presença destes artistas e o facto de não ter que se preocupar com dezenas de revistas possam tê-lo inspirado a produzir para além dos cânones de qualidade mínima impostos pelo seu patrão. E terá sido assim que o tiro da DC saiu pela culatra.
Vale a pena mencionar um epílogo. Supostamente, em 1961, Jack Liebowitz terá dito a Martin Goodman num jogo de golfe que a Liga da Justiça, uma revista de superheróis, estava a vender muito bem. Embora tanto Goodman como Liebowitz jogassem golfe, Goodman tinha a sua própria rede de espiões dentro da distribuidora (para garantir a veracidade das vendas da Marvel reportadas pela IND) e é mais provável que os dados viessem daí. O próprio Stan Lee era contra a ideia de relançar os superheróis, depois do falhanço de 1953, e é interessante ver como brincou com o tema até que todos os novos títulos tivessem sido lançados e as suas histórias se solidificado num novo conceito, o universo partilhado. A Marvel só teve que esperar até 1965 para ultrapassar a DC na tabela de vendas e, em 1974, acabou por ser mesmo Marty Ackerman (dono da Cadence, empresa que tinha comprado a Marvel em 1967) a fazer uma oferta a Liebowitz para adquirir a DC. Liebowitz recusou.
Texto: Paulo Costa
O meu obrigado ao Paulo Costa por mais um artigo, e já sabem, para ler as outras crónicas dele basta clicar no seu nome!
Boas leituras
terça-feira, 22 de abril de 2014
A Palavra dos Outros: Crónicas do Bendisverso II - Um passado que muda todos os dias
Chegou mais uma "Crónica do Bendisverso" escrita por Paulo Costa!
E mais uma vez estou de acordo com o Paulo neste Bendisverso...
:D
Crónicas do Bendisverso II: Um passado que muda todos os dias
Já se passaram dois anos desde que a DC reiniciou completamente a sua cronologia com o evento “Flashpoint” e a subsequente série de títulos apelidados “New 52”. Cada vez que altera a sua cronologia, a DC insiste em fazer histórias espalhafatosas para poder dizer “Vejam! É tudo novo!”. A Marvel simplesmente cria uma nova continuidade e nem chama a atenção para isso, até porque acontece de forma perfeitamente acidental. A causa é uma: Brian Michael Bendis, o homem que inventa passados para os personagens quando lhe dá jeito.As sementes do Bendiverso foram plantadas quando Bendis escrevia o Demolidor. Bendis resolveu explicar porque o vilão Homem-Sapo (Leap-Frog), um antigo inimigo do Demolidor da era pré-Frank Miller, quando a revista era ridícula. Acontece que a história da redenção do Homem-Sapo e do seu filho assumir o uniforme para tentar lançar-se com uma carreira de herói (também como Homem-Sapo, mas no original Frog-Man) era bem conhecida, tendo sido publicada numa história do Capitão América, com um seguimento numa história seguinte do Homem-Aranha. Bendis não pesquisou, não perguntou e abriu a caixa de Pandora.
Este tipo de revisão não era inédito. Quando Roy Thomas reintroduziu o Ciclone (Whizzer) no Universo Marvel, tentou explicar que ele não conhecia o Capitão América, apenas o seu substituto. No entanto, o próprio Thomas, ao escrever as histórias dos Invasores nos anos 70, contribuiu para que o Ciclone e o Capitão América original trabalhassem juntos várias vezes. O Cable, por seu lado, foi criado por Rob Liefeld como um personagem que toda a gente conhecia mas nunca tinha sido mostrado. Mas o modo como Bendis ignora a continuidade roça o irresponsável e já contaminou os seus colegas que têm chegado à Marvel nos últimos anos, nomeadamente Nick Spencer e Jonathan Hickman. O que nos leva à mudança radical que está a ser feita ao grupo de personagens mais metafísicos do universo cósmico.
Hickman já tinha tentado reconstruir o passado do SHIELD, tanto na série “SHIELD” (onde a organização existe desde a época renascentista, fundada por Leonardo da Vinci) como em “Secret Warriors” (ligando organizações antagónicas como a SHIELD, HYDRA e o Zodíaco a uma fonte comum). Transformou, também, Reed Richards num herói presente em vários universos. Mais recentemente, na actual fase que tem escrito nos Vingadores, têm morrido algumas figuras clássicas, como o Tribunal Vivo e o Vigia. E a introdução dos Builders no crossover “Infinity” parece ter sido feita para tirar de cena os Celestiais, uma vez que ambos têm funções e motivações praticamente idênticas. De certo modo, é compreensível. Às vezes, personagens com poderes de deuses deviam ser únicos, e não é tão fácil estar sempre a inventar ameaças que podem aniquilar o universo.

Mas o modo como o passado é afectado vê-se também em histórias mais mundanas. Tivemos o caso de Bendis e Howard Chaykin a criar uma equipa de Vingadores existente em 1959 (incluindo Kraven, Namora, um Dentes-de-Sabre uniformizado pré-Arma X e, é claro, o avatar de Chaykin no Universo Marvel, Dominic Fortune), Ed Brubaker a criar uma equipa desaparecida de X-Men na mini-série “Second Genesis” e ao fazer do falecido Bucky um agente soviético vivinho-da-silva durante todo o período em que supostamente esteve morto. E, quiçá a modificação que faz menos sentido, vimos também Matt Fraction a introduzir um Nick Fury Jr. negro que toda a gente parece aceitar sem problemas e conhecer há vários anos, só para aproveitar o Ultimate Samuel L. Fury que aparece nos filmes.
No passado, os fãs discutiam se a presença dos Beatles, do presidente Jimmy Carter, das referências a séries de TV canceladas ou das calças à boca de sino fariam sentido em flashbacks. Na prática, havia uma regra não escrita que as histórias passavam-se no mês e ano em que foram publicadas, e que representavam o passado mas os detalhes menos importantes não necessitavam de ser mencionados, desde que o tema central da história fosse preservado. Mas agora até os detalhes mais importantes são ignorados, a não ser que sejam necessários para a história a contar hoje. De facto, quem precisa de um “New 52”?
Texto: Paulo Costa
Podem ver os outros artigos do Paulo Costa, bastando para isso clicar no nome dele!
:)
E podem ver também a primeira crónica do Bendisverso no seguinte link:
Crónicas do Bendisverso I - Peter Parker merece um final feliz
Boas leituras
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