terça-feira, 3 de maio de 2016

Heróis esquecidos da Marvel Parte 3





Chegamos à conclusão da nossa passagem pelos anos 50 da Marvel, quando a empresa era conhecida como Atlas Comics. Foi uma era com poucos super-heróis, mas em que foram criadas várias personagens que foram depois reaproveitadas por fãs de banda desenhada que se tornaram profissionais.

Algumas destas personagens, mesmo não sendo super-heróis, foram introduzidos posteriormente no Universo Marvel normal, contribuindo para a sua variedade. Depois dos super-heróis, heróis do passado, do futuro e da selva, terminamos com os aventureiros e os espiões, acrescentando ainda uma listagem de personagens one-shot que achamos relevantes.

Aventureiros

Venus ainda começou no tempo da Timely, em Agosto de 1948, e a revista Venus continuou a ser publicada até Abril de 1952. As suas histórias começaram por misturar aventura e romance, com a deusa greco-romana do amor a viajar para a Terra e a assumir a identidade de Vikki Starr, editora de uma revista feminina, “Beauty”, enquanto tentava manter uma relação com o babado proprietário da revista, Whitney P. Hammond. No entanto, à medida que o tempo passava, a parte romântica foi diminuindo e as histórias passaram a assumir contornos mais negros, entrando no género de terror, com visitas frequentes dos outros deuses gregos. Venus foi integrada no Universo Marvel nas histórias dos Campeões, e tal como Jimmy Woo e Marvel Boy, fez parte da revista Agents of Atlas, onde foi revelado que não era a verdadeira Vénus, mas sim uma sereia.


Antes de ser cancelada, a revista Man Comics tentou introduzir uma nova série, Bob Brant e os Trouble-Shooters, um grupo de adolescentes que decidiram que era boa ideia combater criminosos. Bob Brant e a sua gangue de vigilantes precoces incluía uma série de estereótipos, já que Bob era o líder tipicamente americano, Daffy era o desenrascado vindo das ruas, Feathers era um nativo-americano intelectual, e Bomber um baixinho que gostava de andar à porrada. As namoradas Carol e Bess também andavam com o grupo. Lance Brant, irmão mais velho de Bob, aparecia na segunda história da revista, como agente governamental sem agência específica, geralmente trabalhando para as Nações Unidas. Uma das histórias contou com a presença de um mutante telepata, o amoral Roger Carstairs. Não voltaram a aparecer, mas o nome Trouble-Shooters foi usado no Novo Universo, em 1986, uma equipa traduzida pela Editora Abril como Os Torpedos.

Antes de pegar nos super-heróis, em 1953, a revista Young Men tinha tentado lançar uma série de tiras diferentes, mas sem grande sucesso: o piloto de corridas Flash Foster, um rebelde com coração de ouro que participa em corridas de rua; o investigador do sobrenatural Rex Lane, recusado pela polícia, que decide resolver casos do oculto por vontade própria; o lutador de boxe profissional Rocky Steele, que como era típico do género era arrastado para problemas alheios que eram resolvidos com os seus potentes punhos; e o recruta Buzz Brand, herdeiro de uma grande fortuna que conhece um novo mundo ao incorporar-se no exército americano, onde a sua fortuna pessoal e conexões familiares não o podem ajudar. Nenhum deixou saudades, mas se não fosse o regresso dos super-heróis no número seguinte, podiam ter durado mais alguns números. Rex Lane tinha algum potencial, especialmente se fosse combinado com o lado místico da Marvel.

Material de leitura: Venus #1-19 e Marvel Mystery Comics #91; Man Comics #26-28; Young Men #21-23.



Heróis de espionagem


Num caso raro para a época, o protagonista da revista Yellow Claw não era o herói, mas sim o vilão. O Garra Amarela era uma cópia nada subtil do mais famoso Fu Manchu, um megalomaníaco saudosista do império manchu (dinastia Qing) da China, auxiliado pelo cientista alemão Fritz von Voltzmann. O herói de Yellow Claw era na verdade Jimmy Woo, agente do FBI, de origem chinesa, que destruía constantemente os planos do Garra Amarela, com ajuda da 'sobrinha' do vilão, Suwan. As histórias de Jimmy Woo foram publicadas de Outubro de 1956 a Abril de 1957, com arte de Joe Maneely e Jack Kirby. Todas as personagens foram recuperadas por Jim Steranko nas histórias de Nick Fury, com Woo a tornar-se agente da SHIELD, para anos mais tarde ser a peça central de Agents of Atlas, assumindo o comando da Fundação Atlas e o posto do Garra Amarela.

Durante os anos 50, a Marvel experimentou lançar algumas revistas de espionagem, aproveitando o sentimento anti-comunista que se propagava pela sociedade americana. Clark Mason era o herói principal da antologia Spy Fighters, começando com histórias convencionais de espionagem, capturando espiões e sabotadores, ou ajudando a roubar material e salvar pessoas do outro lado da Cortina de Ferro. A partir da sétima edição, Clark, cuja agência nunca foi identificada, recebeu a patente militar de capitão e foi enviado para a guerra na Coreia, onde permaneceu durante seis edições, regressando ao formato convencional para os três números finais. Clark Mason nunca foi reaproveitado no Universo Marvel.

Outro espião profissional era Kent Blake, que tinha direito à sua própria revista, Kent Blake of the Secret Service. Tal como Mason, Blake começou por ser um espião convencional, com as histórias a serem publicitadas como reais, mas saltando de contra-espionagem para ataques terroristas ou missões de infiltração conforme as necessidades da história, o que seria improvável para um espião real. De início, Blake trabalhava para o Departamento de Investigações Especiais do Serviço Secreto mas, tal como Mason, passou por um período de seis edições integrando o teatro de guerra na Coreia. Kent Blake foi introduzido no Universo Marvel numa história do Homem-Aranha, em flashbacks referentes aos pais deste, os espiões Richard e Mary Parker.

O próximo herói também espiava só que não era espião, mas sim um detective privado. Rocky Jorden era a estrela principal da antologia Private Eye e as suas histórias, que eram anunciadas na capa como sendo baseadas em casos reais, eram típicas do género, sendo contratado essencialmente para encontrar pessoas desaparecidas ou que estejam envolvidas no crime organizado. Rocky Jorden era bastante atlético, com conhecimentos de ginástica e artes marciais, e a história tinha personagens secundárias recorrentes, nomeadamente a sua namorada e secretária, Lisa Brown. Era inspirado numa série de TV, Rocky King, Inside Detective.

Doug Grant era mais um espião sem agência identificável, aparecendo na antologia Spy Cases. Apesar de lutar contra comunistas, comportava-se mais como um detective privado, mas, tal como Mason e Blake, viajava por todo o mundo e também foi incorporado nas forças armadas para passar pela Guerra da Coreia. Grant parecia ser mais versátil, num papel ainda mais adaptativo que os outros espiões da Marvel da época, sendo publicado durante mais tempo mas em menos páginas que Clark Mason e Kent Blake. Durante as histórias de guerra, tentaram dar-lhe um assistente humorístico, Alfie Brown.

Rick Davis, outro agente do Serviço Secreto (tal como Kent Blake), não durou tanto tempo como os seus congéneres, uma vez que a antologia onde era publicado, Spy Thrillers, foi lançada fora da época das outras revistas e, sem público, acabou cancelada mais rapidamente, não passando de quatro números. Mesmo assim, Rick Davis tinha potencial, pois foi apresentado como um jovem prodígio quando ainda estava na Academia e adaptou-se rapidamente ao seu trabalho, pelo que teria sido interessante se alguém o tivesse ido buscar para a SHIELD.

Material de leitura: Yellow Claw #1-4; Spy Fighters #1-15; Kent Blake of the Secret Service #1-14; Private Eye #1-8 e Young Men #9-11; Spy Cases #26 (1)-19; Spy Thrillers #1-4.

Menções honrosas


Os vários personagens que apareceram nas histórias seguintes surgiram no período pré-Marvel, e alguns deles foram reciclados anos depois por novos autores:
-        Simon Garth, um zombi, reaproveitado nos anos 70 na revista Tales of the Zombie (Menace #5)
-        Ken Hale, caçador transformado num gorila e o Robot Humano, mudo mas inteligente, reaproveitados em Agents of Atlas como Homem-Gorila e M-11 (Men's Adventures #26 e Menace #11)
-        Arthur Nagan, cuja cabeça foi transplantada para o corpo de um gorila; Jerry Morgan, que fez uma cobaia de si próprio, reduzindo os ossos mas não a pele; e Chondu, um místico, reutilizados por Steve Gerber nos Cabeças como adversários dos Defensores (Mystery Tales #21, World of Fantasy #11 e Tales of Suspense #9)
-        Kanu e Bala, um par de jovens da Atlântida, semelhantes a Namor e Dorma, mas sem poderes (Adventure into Mystery #1)
-        Adam Clayton, um homem invisível, transformado em Makkari dos Eternos por Roger Stern (Strange Tales #67)
-        Dr. Droom, um místico, que depois seria transformado no Doutor Druida nos anos 70 e integrado no Universo Marvel em histórias do Hulk e dos Vingadores (Amazing Adventures #1-4 e 6)
-        Vários mutantes, incluindo os telepatas Peter King e Henry Gray, o superinteligente Hugh Taylor, o teleportador Vincent Farnsworth, o Poderoso Mento, e Tad Carter, que foi usado nos X-Men por John Byrne (Journey into Unknown Worlds #37, Journey into Mystery #44, Spellbound #33, Strange Tales #78 e Amazing Adult Fantasy #14).


Pode ler também a Parte 2 (Heróis do Espaço e da Selva) e a Parte 1 (Super-heróis e Heróis do Passado).















Deixa o teu comentário

terça-feira, 19 de abril de 2016

Heróis esquecidos da Marvel Parte 2






Continuamos aqui a visita aos anos 50 da Atlas Comics, o nome que a Marvel usava nessa altura, e em que uma série de novos heróis passou pelas bancas norte-americanas, sem deixar grande marca nas vendas da época, mas contribuindo para engrandecer a história da editora.

Estes heróis passaram por uma série de temáticas, e não necessariamente pelos super-heróis. Continuamos a listagem dos heróis aventureiros que a Marvel publicou nesta fase, alguns deles acabando por ficar conhecidos pelo público português, mesmo não sabendo que faziam parte do Universo Marvel. Tal como explicámos na primeira parte, não vamos listar os heróis dos westerns e das revistas de guerra, que foram em número bem maior.

Heróis do espaço

Marvel Boy é Bob Grayson, filho do cientista Matthew Grayson, que fugiu com o pai para o planeta Urano no início da Segunda Guerra Mundial. Durante a infância, Bob Grayson foi treinado pelos cientistas uranianos para utilizar um par de pulseiras energéticas, podendo assim retornar à Terra como um adolescente, para enfrentar ameaças comunistas ou terroristas que usavam ciência avançada, muitas vezes fornecida por invasores alienígenas. Era geralmente ajudado (ou atrapalhado) por Lilli, uma uraniana. Marvel Boy foi depois recuperado nos anos 70 como um vilão numa história do Quarteto Fantástico, numa história da revista What If? (como membro de uma equipa de Vingadores activa em 1958), reciclado no herói Quasar (membro da SHIELD e dos Vingadores, usando as pulseiras quânticas, agora relacionadas com a entidade cósmica Eon) e novamente reintroduzido no Universo Marvel, décadas mais tarde, como parte da série Agents of Atlas.

A revista Space Squadron era uma espécie de antologia, onde todos os personagens estavam ligados. O herói principal era o capitão Jet Dixon, acompanhado pelos seus assistentes, o cadete Rusty Blake e o guerreiro marciano Max, e pela sua namorada Dawn Revere, filha do comandante do esquadrão, Blast Revere. As histórias passavam-se no então longínquo ano 2000, onde viagens extra-planetárias eram comuns e o sistema solar pululava com espécies alienígenas. As histórias secundárias tinham como heróis um jovem Blast Revere em início de carreira e a tira “Famous Explorers of Space”, que explorava o passado recente do mundo de Space Squadron.

Speed Carter era o herói da revista Spaceman, onde Carter liderava um esquadrão de Sentinelas do Espaço, no ano 2075. Tal como o seu congénere Jet Dixon, habita um futuro onde a humanidade se espalhou pelas estrelas e onde é necessário enfrentar muitas ameaças alienígenas, dentro e fora do Sistema Solar. Speed Carter lidera uma unidade que inclui o seu assistente, Crash Morgan, a sua namorada, Stellar Stone (filha do comandante dos Sentinelas) e o cadete Johnny Day, um adolescente. Tal como em Space Squadron, a revista Spaceman incluía a rubrica “Famous Explorers of Space”, mas desta vez relacionada com Carter em vez de Jet Dixon. Aliás, o mundo de Spaceman não era o futuro de Space Squadron.

Histórias publicadas em: Marvel Boy #1-2 e Astonishing #3-6; Space Squadron #1-5 e Space Worlds #6; Spaceman #1-6.

Heróis da selva

Existiram duas revistas separadas passadas na selva com mulheres como personagens principais. A mais bem-sucedida foi Lorna, Rainha da Selva, um clone óbvio de Sheena, mais à vontade no mato africano que em qualquer lugar civilizado. As histórias eram típicas, envolvendo animais selvagens, caçadores furtivos e, estranhamente, uma atitude mais progressiva com os africanos nativos do que era normal para a época. De Julho de 1954 a Agosto de 1957, teve uma publicação longa. O caçador Greg Knight (romanticamente interessado em Lorna), o chefe tribal M’tuba e o chimpanzé Mikki constituíam o elenco, com Knight a ter direito a histórias próprias dentro da revista.

Jann da Selva (em português, Jana da Selva, como chegou a aparecer na revista Mundo de Aventuras) não era muito diferente de Lorna, embora as suas habilidades acrobáticas tenham sido aprendidas no circo, onde era uma trapezista com o nome Jane Hastings. Jann encabeçava uma antologia com personagens não relacionadas, incluindo o príncipe Waku (o primeiro personagem negro a ter histórias próprias numa editora americana convencional) e o caçador Cliff Mason, que, ao contrário da relação de Greg Knight com Lorna, nunca conheceu Jann. O seu principal aliado era o chefe tribal Kuba.

Existiu também a antologia Jungle Action, com vários personagens recorrentes, Lo-Zar, muito parecido com Ka-Zar (tanto que, quando as histórias foram republicadas nos anos 70, foi renomeado Tharn), que protegia a selva africana de invasores comunistas; Jungle Boy, um adolescente filho de um caçador, inspirado no filho de Tarzan, Korak, e que também tinha um ódio visceral a comunistas (enfim, eram os anos 50); Leopard Girl, uma heroína que usava uma pele de leopardo que lhe cobria todo o corpo; e Man-oo the Mighty, um gorila inteligente. Embora nunca se tivessem encontrado, muitos destes tinham um fio condutor recorrente nas suas respectivas histórias, a cobra gigante Serpo.

Material de leitura: Lorna the Jungle Queen #1-5 e Lorna the Jungle Girl #6-26; Jungle Tales #1-7 e Jann of the Jungle #8-17; Jungle Action #1-6.

Leia também a Parte 1.

Deixa o teu comentário