Michel Vaillante era dos meus heróis de eleição quando eu era mais novo. Deslocava-me à Biblioteca Municipal quase todos os dias para ler lá livros de BD (não havia dinheiro para comprar), e Michel Vaillant era quem me fazia não me importar com os 20 minutos que eu demorava da Biblioteca até casa. Infelizmente

perdi contacto com a série, mas ficou sempre uma boa memória dela e por isso mesmo nunca mais voltei a reler, com medo de agora ficar desiludido.
Paulo Costa tem dois amores, automóveis e BD, e para uma série destas é o homem indicado!
Fiquem com as palavras do Paulo!
Campeão da BD
Para mim, a intersecção entre os meus dois hobbies favoritos faz-se em Michel Vaillant. Não é a única BD do mundo ligada ao automobilismo, mas é talvez a mais conhecida. Comecei a gostar de automóveis antes de me tornar fã de BD, e assim que vi Michel Vaillant pela primeira vez, não podia ignorar um mundo alternativo onde este jovem francês era campeão do mundo de F1 e de muitas outras modalidades.
Tenho quase a certeza que o primeiro livro da série que li foi “O Segredo de Steve Warson”. Não o sabia na altura, mas este livro representou uma revolução na série que se fez sentir durante os anos seguintes. Neste livro, que se passa nas 500 Milhas de Indianápolis, o Leader, velho inimigo da equipa Vaillante, envelhecido prematuramente, revela a Steve Warson, colega de equipa de Michel Vaillant, que vai parar todos os seus esquemas e que é o verdadeiro pai de Ruth Ranson, namorada do piloto americano.

Durante vários números, esta revelação vai ter consequências, como a descoberta da sua verdadeira identidade por Ruth e a saída intempestiva de Warson da equipa, que depois lhes custará um título mundial. Enquanto Michel Vaillant faz as pazes com o seu amigo numa prova de ralis, o seu irmão Jean-Pierre não o perdoa e demora algum tempo a recontratá-lo. Quanto a Ruth, regressou várias vezes para atormentar a família Vaillant, uma nova rivalidade alimentada por uma tremenda carga emocional resultante da sua ligação anterior à equipa.
Os fãs portugueses têm dois motivos para quererem ler esta série: os álbuns “Raparigas e Motores” e “O Homem de Lisboa” passam-se ambos no Rali de Portugal. Este último tem algum interesse especial por ter uma história paralela de espionagem industrial. Eu, por outro lado, tenho um apreço especial por “A Vingança de Um Piloto”. A história não é transcendental: Yves Douléac, piloto da Vaillant nas provas de endurance e carros de turismo, resolve fazer finca-pé face a algumas exigências familiares (o seu patrocinador pertence ao futuro sogro, um aristocrata que nunca viu com bons olhos a ligação de um jovem de origens humildes à sua filha, ela própria também exímia ao volante), o que quase leva à sua saída da equipa. Mas a história passa-se no antigo Mundial de Marcas

, onde corriam os meus carros favoritos de todos os tempos, os fabulosos carros de Grupo 5 das marcas Porsche, Lancia, BMW e Ford, fielmente retratados por Jean Graton. O título original, “La Silhouette en Colère”, é um trocadilho que só os fãs de desporto automóvel percebem.
A grande vantagem das histórias de Graton reside na sua ligação ao mundo real. Muitos pilotos de várias décadas foram colegas e adversários de Michel Vaillant, sendo que Pierre Dieudonné, piloto belga que fez carreira nas provas de endurance, era presença recorrente nas actividades paralelas da equipa. O autor homenageou Gilles Villeneuve, que morreu nos treinos para o GP da Bélgica de 1982 antes de tornar campeão, com um título no mundo ficcional de Michel Vaillant. Jean-Denis Délétraz, na altura um jovem a caminho da F1, foi a estrela principal do álbum “F3000”. E até Jorge Ortigão, conceituado piloto dos ralis e das pistas nacionais, foi piloto oficial da Vaillant, em “O Homem de Lisboa”.
A atenção ao detalhe também passa pelos automóveis, reproduções fidelíssimas das linhas reais dos veículos e, após a introdução de patrocínios, das decorações dos mesmos. E os modelos da marca Vaillant podiam muito bem ter sido construídos sem grandes alterações. Os efeitos sonoros que Graton colocava como parte da arte também ajudavam a avivar a imaginação. Para mim, o VRRROOOAAARRR de Graton é tão emocionante como o KRAAKKKAAAADOOOOM de Walt Simonson.

O último número de Michel Vaillant, o 70º, foi publicado em 2007, 50 anos depois do primeiro. Nessa altura já a série tinha parado em Portugal, devido ao fecho da editora Meribérica. Philippe Graton, filho de Jean, já prometeu uma nova série, tentativamente conhecida como Michel Vaillant – 2ª Temporada. Entretanto, a Editora Dupuis tem reimpresso as histórias antigas em formato Intégrale, que já vai no 16º volume e chega ao 53º álbum.
Texto: Paulo Costa
O VRRROOOAAARRR era uma grande imagem de marca...
:)
Paulo Costa vai assinar uma grande reportagem sobre o
Michel Vaillant na edição de Julho da revista Autosport, à venda na
primeira quinta-feira do próximo mês.
Vamos esperar para ver se Philippe Graton continua o trabalho do pai e ....
Boas leituras