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terça-feira, 15 de setembro de 2015

Crónicas do Bendisverso IV: Se fossem da Apple, seriam iMutants



Esta coisa da Marvel refazer as suas propriedades intelectuais para as tornar fáceis de adaptar para cinema e televisão é complicada. Principalmente quando os direitos para fazer novos filmes ou séries pertencem a outra empresa, como a FOX. Isso até foi pelo melhor. Se a Marvel não tivesse ido à falência, nunca teria havido sequer um filme dos Vingadores, quanto mais dos Guardiões da Galáxia ou do Homem-Formiga. E não teríamos uma série de televisão da SHIELD com os Inumanos como convidados especiais.

Nesse caso, teria sido tudo X. Nos anos 90, bastava pôr um X na capa de uma revista ou dizer que personagem tal era um mutante, e as revistas esgotavam mais depressa que chamuças quentinhas numa pastelaria à hora de almoço. Por outro lado, se pusessem os Inumanos em destaque, ia parecer aqueles três crepes de queijo e espinafre que ficam até ao fim do dia e ninguém quer comer.

Os Inumanos são um daqueles produtos da mente inventiva de Jack Kirby que os escritores da Marvel adoravam ter nas suas histórias, mas aos quais o público não correspondia. Durante 50 anos, passaram por várias fases e foram reinventados ao de leve, numa tentativa de lhes dar mais profundidade e protagonismo, mas sempre sem fugir muito do pré-estabelecido. Por isso, é estranho ver que a Marvel tem usado alguns dos eventos dos últimos anos para colocar os Inumanos em posição de destaque, espalhando-os pelo mundo e fazendo o papel de mutantes, que não estão disponíveis para os estúdios da Marvel Films.

Basicamente, quando se fala em Inumanos fala-se no grupo que constitui a família real, os personagens criados por Kirby: Raio Negro e a sua esposa Medusa, os primos de Raio Negro, o guerreiro Gorgon e o estratega Karnak, o aquático Triton (o membro mais calado da família e irmão de Karnak), e Crystal, a irmã mais nova de Medusa, cheia de bichos-carpinteiros e com vontade constante de sair de Attilan, a cidade escondida. Durante vários anos, as histórias geralmente envolviam um membro da família real a endoidecer, ou Maximus, irmão de Raio Negro, a tentar fazer um golpe de estado; ou a probabilidade de alguém descobrir a localização do Grande Refúgio onde os Inumanos estavam escondidos.

A existência isolada da sociedade Inumana era um conceito omnipresente na história. O número exacto da população de Attilan é variável, embora já tenha sido apontado como 1250. Ao que parece, e isto foi mencionado na graphic novel de Ann Nocenti de Bret Blevins e na mini-série de Paul Jenkins e Jae Lee, cada cidadão deve obrigatoriamente passar pelas Névoas Terrígenas e cada poder individual é necessário para a estabilidade da sociedade. O que explica a razão porque os Inumanos entram em parafuso cada vez que Medusa ou Crystal saem de Attilan. Raio Negro também tem medo da população humana, desde a II Guerra Mundial, algo que foi mostrado numa série de histórias curtas publicadas em What If?, que contavam as origens dos Eternos e dos Inumanos, tendo o grupo imortal de Olympia ajudado no transporte de Attilan do Mar do Norte para os Himalaias.

Mas e agora? Agora, de repente, a população de Inumanos é de milhões. E muitos deles não conhecem as suas origens, nem foram expostos às Névoas Terrígenas. De repente, no evento "Inhumanity", idealizado por Matt Fraction em 2013, as necessidades específicas de uma sociedade endogâmica já não interessam, as Névoas já não têm que ser protegidas a todo o custo, e Attilan já não tem que ficar escondida. E assim, em vez de existirem milhões de mutantes no Universo Marvel, passam a existir milhões de Inumanos, como a nova Miss Marvel. Mesmo a tempo de introduzir o conceito na televisão e depois poder fazer um filme para estrear em 2019.

Para falar a verdade, Matt Fraction não inventou esta história da sua cabeça. Existiam sementes que começaram a ser plantadas nos anos 90, que permitiram aos Inumanos mudar completamente de estratégia. Tudo começou com o crossover "Atlantis Rising", que envolveu Adam Warlock e o Quarteto Fantástico, onde a Atlântida emergiu do Oceano Atlântico para a superfície. Raio Negro transportou Attilan mais uma vez para lá, declarando-se soberano do novo território. Seguiu-se a mini-série da Marvel Knights em 1998, por Jenkins e Lee, que viu Medusa representar Attilan nas Nações Unidas e Raio Negro defender activamente a integridade da sua nação. E depois, os Kree retornaram após milhares de anos para tomar controlo dos Inumanos, que tinham criado como uma raça de escravos, na mini-série de 2001, por Carlos Pacheco e José Ladronn, que abriu caminho para os Inumanos tomarem controlo da sociedade Kree na mini-série War of Kings.

Se a Marvel conseguiu fazer com que personagens tão obscuros como Groot e Rocket Racoon se tornassem estrelas mundiais graças aos filmes, deverá conseguir fazer o mesmo com os Inumanos. Ainda que tudo o que eles façam agora seja demasiado familiar, parecido com os X-Men. É o momento ideal para os súbditos de Raio Negro se afirmarem.




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terça-feira, 7 de outubro de 2014

Crónicas do Bendisverso III: Uma nova vida



O Universo Marvel foi afogado pela nova cronologia não planeada 'criada' por Brian Michael Bendis, mas isso não tem que significar que é tudo mau. Aliás, em termos de histórias, o Bendisverso tem algumas vantagens. Todos os escritores têm os seus personagens fetiche (por exemplo, Roger Stern trouxe de volta aos Vingadores os então esquecidos Mulher-Hulk e Cavaleiro Negro, Erik Larsen sempre foi um grande fã de Nova, Mark Waid ressuscitou Sharon Carter), mas neste caso Bendis conseguiu aumentar e muito a importância de personagens que escolheu para integrar o elenco dos Novos Vingadores, e inspirou outros escritores a fazer o mesmo com outros personagens:

Cage e Punho de Ferro
A dupla de amigos mais insólita do mundo juntou forças em 1978, quando as duas modas que lhes tinham dado origem (blaxploitation e kung fu craze) já se tinham eclipsado. No entanto, o duo teve algum sucesso no mercado direto e continuou no ativo até 1986, quando o Punho de Ferro morreu. Durante os anos 90, ambos não passaram de personagens secundários, com Luke Cage a ganhar uma revista própria pouco conhecida, num ambiente urbano-depressivo, enquanto Danny Rand foi ressuscitado na revista de Namor. O crossover “Heroes Reborn” permitiu o regresso da dupla nas páginas de “Heroes For Hire”, integrando uma formação de super-heróis convencionais, mas Bendis trouxe ambos de volta a histórias urbanas como coadjuvantes nas histórias de Demolidor. Ao dar o salto para a revista “New Avengers”, Bendis promoveu intensamente Cage como uma personagem importante para a consciência da equipa, como se fosse uma espécie de Grilo Falante super-forte e invulnerável, e hoje tornou-se inseparável do conceito integrando uma equipa criada por si na revista “Mighty Avengers”. O Punho de Ferro não demorou muito a integrar a equipa (fazia sentido), durante a Guerra Civil, mas o mais importante foi a sua passagem para o título solo “Immortal Iron Fist”, que o transformou de um objecto de curiosidade para um verdadeiro personagem de culto, graças ao excelente trabalho dos escritores Ed Brubaker e Matt Fraction.

Mulher-Aranha
Um de dois casos criados pela Marvel para ter versões femininas de super-heróis com marca registada, Jessica Drew foi uma personagem popular durante o início dos anos 80, com histórias escritas por Chris Claremont e algum envolvimento com os X-Men. Mas a personagem acabou por ser dada como morta e perdeu os seus poderes, sendo praticamente relegada ao esquecimento. Claremont ainda tentou usá-la nos anos 90 nas páginas de “Wolverine”, mas foi preciso esperar por Bendis para recuperar a popularidade antiga, restaurando os seus poderes e incluindo-a na equipa principal em “New Avengers”. A personagem acabou se tornar a peça central da infiltração skrull na comunidade de super-heróis, pois uma falsa Mulher-Aranha foi membro dos Vingadores durante a invasão da Terra, e quando Jessica foi libertada teve que provar o seu valor à equipa. Drew, que deve a sua origem à HYDRA e é um de vários heróis que é membro directo da SHIELD, acabou por integrar-se nos Vingadores, tanto na equipa principal como no grupo de espionagem em “Secret Avengers”, e Jonathan Hickman não a quis deixar de lado quando começou a escrever o título principal da equipa.

Doutor Estranho
Stephen Strange teve que reiniciar a sua revista e passar por antologias em algumas ocasiões, mas na prática teve um título próprio permanente entre 1964 e 1996, até ao crossover “Onslaught” e à falência da Marvel. Estranhamente, durante vários anos, fora a mini-série ocasional, passou a ser ignorado pela maioria dos escritores, que o consideravam excêntrico demais. O feiticeiro supremo da Terra sempre operou à margem dos super-heróis, pelo que não era considerado uma peça fundamental para o novo tipo de histórias que surgiu durante o início do reinado de Joe Quesada como editor-chefe. Mas Bendis criou uma equipa bastante ecléctica em “New Avengers”, e como resolver a questão dos poderes mágicos da então desaparecida e enlouquecida Wanda Maximoff era uma das histórias recorrentes, não demorou muito para o Doutor passar a ser membro de pleno direito da equipa. Mais, Bendis não resistiu a dar a Strange um papel muito especial no seu novo implante de continuidade, os Illuminati, que colocava o feiticeiro como uma peça importante em todas as crises que assolaram o mundo dos super-heróis no Universo Marvel. É nessa qualidade que o Doutor Estranho continua como membro, na atual encarnação do título “New Avengers”, dedicado especificamente aos Illuminati.

Destrutor
Como super-herói, Alex Summers sempre viveu na sombra do seu irmão, Ciclope, líder do grupo mutante X-Men. Mesmo no mundo real, o personagem tem tido apenas momentos ocasionais de brilhantismo, entrecortados por alturas em que era remetido para segundo plano. Depois de criado por Roy Thomas em 1970, Chris Claremont não precisou nele na sua formação dos X-Men, em 1975. Alex Summers chegou a tentar uma vida civil, pelo que Claremont raramente o usou até ao final dos anos 80. Foi Peter David o primeiro a explorar o verdadeiro potencial do Destrutor, na revista de temática mutante mais indiossicrática da época, “X-Factor”, onde o irmão mais novo do Ciclope passou a comandar uma equipa governamental. Mas no final dos anos 90, com novos escritores, o título X-Factor rapidamente deixou de se distinguir da manada e o personagem foi enviado para um universo paralelo, mais depressivo e dantesco, onde ficou preso durante dois anos. Quando voltou, mais valia ter lá ficado, pois foi parar às mãos do escritor Chuck Austen, na telenovela mexicana em que este tinha transformado “Uncanny X-Men”. Mas Ed Brubaker aproveitou a criação do terceiro irmão Summers em “Deadly Genesis” para recuperar Alex e colocá-lo no renascido universo cósmico com a história “The Rise and Fall of the Shi'ar Empire”. Mas foi Rick Remender que o trouxe de volta para a frente do Universo Marvel na revista “Uncanny Avengers”, onde Alex revelou ter uma personalidade bem mais amigável que o seu irmão, assumindo da equipa unidade Vingadores e X-Men.

Universo Cósmico
Tema cósmico não vende! Isso era um mantra entre alguns editores. Passava-se alguma coisa no espaço? A Terra tinha que ter alguma coisa a ver com isso. Guerra Kree/Skrull, Fénix, Cubo Cósmico, Guerra dos Espectros, Tempestade Galáctica, Desafio Infinito, tudo acaba por desaguar na Terra, um planeta tecnologicamente pouco avançado, cuja população não tem capacidade para se aventurar para fora do seu sistema solar. Faz sentido que, num universo tão grande, tudo se passe à volta de um pequeno planeta azul num braço da espiral da Via Láctea? O editor Bill Rosemann disse que não. Rosemann foi o responsável pelo interesse renovado nas histórias passadas em naves espaciais e planetas alienígenas. Não é uma consequência directa da chegada do Bendisverso, mas vem no seguimento de uma nova forma de escrever histórias (representadas por Bendis e por Brubaker, por Kieron Gillen, Matt Fraction e Jonathan Hickman), graças ao trabalho de Rosemann, mas também de Keith Giffen e, mais importante, de Dan Abnett e Andy Lanning. As histórias “Annihilation”, “War of Kings” e “Realm of Kings”, os títulos do Nova e dos Guardiões da Galáxia, contam todos com heróis terrestres, mas o planeta Terra é quase ignorado. Tudo se passa numa galáxia muito, muito distante (ainda que no presente em vez de há muito, muito tempo). E agora que o filme dos Guardiões da Galáxia foi um sucesso, as histórias no Espaço Sideral vão continuar a fazer parte do Universo Marvel durante o futuro próximo. E até Bendis já está a escrevê-las. Mas não tão bem como Abnett & Lanning.

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terça-feira, 22 de abril de 2014

A Palavra dos Outros: Crónicas do Bendisverso II - Um passado que muda todos os dias


Chegou mais uma "Crónica do Bendisverso" escrita por Paulo Costa!
E mais uma vez estou de acordo com o Paulo neste Bendisverso...
:D

Crónicas do Bendisverso II: Um passado que muda todos os dias

Já se passaram dois anos desde que a DC reiniciou completamente a sua cronologia com o evento “Flashpoint” e a subsequente série de títulos apelidados “New 52”. Cada vez que altera a sua cronologia, a DC insiste em fazer histórias espalhafatosas para poder dizer “Vejam! É tudo novo!”. A Marvel simplesmente cria uma nova continuidade e nem chama a atenção para isso, até porque acontece de forma perfeitamente acidental. A causa é uma: Brian Michael Bendis, o homem que inventa passados para os personagens quando lhe dá jeito.

As sementes do Bendiverso foram plantadas quando Bendis escrevia o Demolidor. Bendis resolveu explicar porque o vilão Homem-Sapo (Leap-Frog), um antigo inimigo do Demolidor da era pré-Frank Miller, quando a revista era ridícula. Acontece que a história da redenção do Homem-Sapo e do seu filho assumir o uniforme para tentar lançar-se com uma carreira de herói (também como Homem-Sapo, mas no original Frog-Man) era bem conhecida, tendo sido publicada numa história do Capitão América, com um seguimento numa história seguinte do Homem-Aranha. Bendis não pesquisou, não perguntou e abriu a caixa de Pandora.

Este tipo de revisão não era inédito. Quando Roy Thomas reintroduziu o Ciclone (Whizzer) no Universo Marvel, tentou explicar que ele não conhecia o Capitão América, apenas o seu substituto. No entanto, o próprio Thomas, ao escrever as histórias dos Invasores nos anos 70, contribuiu para que o Ciclone e o Capitão América original trabalhassem juntos várias vezes. O Cable, por seu lado, foi criado por Rob Liefeld como um personagem que toda a gente conhecia mas nunca tinha sido mostrado. Mas o modo como Bendis ignora a continuidade roça o irresponsável e já contaminou os seus colegas que têm chegado à Marvel nos últimos anos, nomeadamente Nick Spencer e Jonathan Hickman. O que nos leva à mudança radical que está a ser feita ao grupo de personagens mais metafísicos do universo cósmico.


Hickman já tinha tentado reconstruir o passado do SHIELD, tanto na série “SHIELD” (onde a organização existe desde a época renascentista, fundada por Leonardo da Vinci) como em “Secret Warriors” (ligando organizações antagónicas como a SHIELD, HYDRA e o Zodíaco a uma fonte comum). Transformou, também, Reed Richards num herói presente em vários universos. Mais recentemente, na actual fase que tem escrito nos Vingadores, têm morrido algumas figuras clássicas, como o Tribunal Vivo e o Vigia. E a introdução dos Builders no crossover “Infinity” parece ter sido feita para tirar de cena os Celestiais, uma vez que ambos têm funções e motivações praticamente idênticas. De certo modo, é compreensível. Às vezes, personagens com poderes de deuses deviam ser únicos, e não é tão fácil estar sempre a inventar ameaças que podem aniquilar o universo.
























Mas o modo como o passado é afectado vê-se também em histórias mais mundanas. Tivemos o caso de Bendis e Howard Chaykin a criar uma equipa de Vingadores existente em 1959 (incluindo Kraven, Namora, um Dentes-de-Sabre uniformizado pré-Arma X e, é claro, o avatar de Chaykin no Universo Marvel, Dominic Fortune), Ed Brubaker a criar uma equipa desaparecida de X-Men na mini-série “Second Genesis” e ao fazer do falecido Bucky um agente soviético vivinho-da-silva durante todo o período em que supostamente esteve morto. E, quiçá a modificação que faz menos sentido, vimos também Matt Fraction a introduzir um Nick Fury Jr. negro que toda a gente parece aceitar sem problemas e conhecer há vários anos, só para aproveitar o Ultimate Samuel L. Fury que aparece nos filmes.


No passado, os fãs discutiam se a presença dos Beatles, do presidente Jimmy Carter, das referências a séries de TV canceladas ou das calças à boca de sino fariam sentido em flashbacks. Na prática, havia uma regra não escrita que as histórias passavam-se no mês e ano em que foram publicadas, e que representavam o passado mas os detalhes menos importantes não necessitavam de ser mencionados, desde que o tema central da história fosse preservado. Mas agora até os detalhes mais importantes são ignorados, a não ser que sejam necessários para a história a contar hoje. De facto, quem precisa de um “New 52”?

Texto:
Paulo Costa

Podem ver os outros artigos do Paulo Costa, bastando para isso clicar no nome dele!
:)
E podem ver também a primeira crónica do Bendisverso no seguinte link:

Crónicas do Bendisverso I - Peter Parker merece um final feliz

Boas leituras
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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A Palavra dos Outros: Crónicas do Bendisverso I - Peter Parker merece um final feliz


Volta a rubrica "A Palavra dos Outros" com novo artigo de Paulo Costa.
Um excelente artigo, por sinal, com o qual eu concordo a 100%!

A Marvel nunca conseguiu lidar com o seu melhor personagem de há uns anos para cá e aquele tipo, o Bendis, destruiu o "meu aranha"...
Eu não podia estar mais de acordo com o Paulo.

 Crónicas do Bendisverso I: Peter Parker merece um final feliz


Vamos admitir, o Peter Parker não tem conserto. Já tentaram várias vezes. Primeiro disseram que ele era um clone, depois disseram que não era um clone. Apagaram-lhe a filha de existência, ressuscitaram-lhe a tia idosa, separaram-no da mulher, juntaram-no novamente à mulher, deram-lhe um emprego estável e mal pago, tentaram fazer dele um avatar animal, trouxeram o maior inimigo de volta, puseram-lhe a namorada morta a pôr-lhe os palitos com o maior inimigo, fingiram que a mulher tinha morrido, desfingiram que a mulher tinha morrido, puseram-no novamente num emprego instável e mal pago, fizeram dele estagiário do Tony Stark, revelaram a identidade secreta, puseram-no nos Vingadores e regurgitaram tudo novamente num acordo com o Diabo, só para tê-lo com uma identidade secreta, num emprego instável e mal pago, a viver com a tia idosa e sem nunca ter sido casado. E depois mataram-no e puseram o segundo maior inimigo dentro da cabeça dele. Mas continuou a ser membro dos Vingadores.

Portanto, esqueçam. Não é possível regressar aos bons velhos tempos do Parker aluno universitário que tira fotografias para um jornal e vive com a tia idosa e não sabe como chamar a atenção da mulher que se recusa a admitir que ama, ao mesmo tempo que ignora as outras duas que se atiram aos pés dele e mantém uma relação puramente física com uma criminosa de carreira. É que nem vale a pena. O Homem-Aranha é o único vigilante mascarado da Marvel que procura ter uma vida típica do super-herói clássico, mas todos os outros heróis já deixaram essa vida para trás. Tornaram-se um híbrido de uma agremiação cultural com uma força paramilitar, em que toda a gente se conhece e toda a gente trabalha na mesma área, sem espaço para vida civil, algo que já referi no meu antigo artigo sobre identidades secretas.

























Forçar o Peter Parker, um exemplo único de humanidade num mundo onde era possível destruir o World Trade Center todas as semanas e ninguém reclamar, a integrar-se nesta realidade de guerra constante entre gangues superpoderosas é errado. E depois de 20 anos de toda a gente reclamar que havia um problema com as histórias que não conseguiam identificar, a constante invenção de problemas identificáveis para resolver o problema por identificar cansou.


No fundo, Peter Parker cresceu. Essa sempre foi a sua jornada, tal como Steve Ditko a tinha delineado nos anos 60, antes de abandonar o personagem. Depois da morte do tio, teve que se tornar homem. Acabou o liceu, começou a trabalhar para pagar as contas da universidade, tentou equilibrar uma vida tripla entre as necessidades profissionais, académicas e morais, ao mesmo tempo que se perguntava quando teria tempo para si e para procurar a mulher dos seus sonhos. E isso não se coadunava com o modo como o resto do Universo Marvel era tratado, já nos anos 70 e 80. Por isso, enquanto os escritores consideravam esta procura pela maturidade um erro (que não era), tentaram infantilizá-lo o mais possível (o verdadeiro erro) e impedi-lo de atingir o seu verdadeiro potencial. Agora que todos os super-heróis são membros dos Vingadores e são proactivos na caça aos bandidos mascarados superpoderosos, Parker não tem espaço para crescer como personagem, porque a sua história já não é relevante. Tudo deu lugar aos Vingadores.

























Como personagem e ídolo de milhões durante décadas, Peter Parker merece mais, pois não o vão deixar ser um membro de pleno direito dos Vingadores. Dada a sua experiência, poderia sê-lo. Mas não vai acontecer. Então, o ideal é fazer com que ele desapareça de cena. Que, depois de tudo aquilo que sofreu durante décadas, tenha o final feliz que merece. Casar-se com a Mary Jane, ir viver para os subúrbios, ter filhos e uma hipoteca da casa para pagar e trabalhar das 9 às 5. Longe da confusão dos super-heróis e dos super-vilões, para que não os possa ver e não se sinta tentado a pegar nas teias e na máscara para pagar por um erro cometido na juventude.


O Universo Marvel pode sobreviver sem Peter Parker. Mas talvez não possa sobreviver sem Homem-Aranha. Não que a Marvel fosse deixar o Homem-Aranha desaparecer e a sua história acabar. Mas tem outros meios para continuar. À sua disposição tem quatro personagens para fazer isso, mas ao contrário de “A Morte do Super-homem”, aqui podem ser todos o verdadeiro. Um mais do que os outros, talvez. No Universo Ultimate, Peter Parker era aquilo com que os escritores sonhavam, um jovem adolescente com problemas pessoas, escolares e familiares. Por isso, não fez muito sentido matarem-no. Claro que, aqui, Parker estava integrado no tipo de universo pós-humano onde todos os super-heróis eram militares, mas como era jovem, seria mais fácil integrá-lo. Nick Fury achava que ele tinha potencial para ser um grande herói, mas foi assassinado por Frank Castle. Para o seu lugar, entrou em cena uma minoria étnica. Isto surge na sequência das afirmações do actor Donald Glover, que se mostrou interessado em interpretar o Homem-Aranha. A Marvel respondeu criando o porto-riquenho Miles Morales, que se tornou o Homem-Aranha do Universo Ultimate. Mas este universo não faz sentido quando a militarização que surgiu aqui começou a infectar o restante do Universo Marvel. Com Galactus a aparecer nesta Terra paralela, esta devia ser destruída e Morales devia ser transferido para o Universo Marvel normal, para ser o Aranha jovem que a editora precisa.

























Mas Morales não é o único Homem-Aranha disponível, mesmo que ele possa ser o principal. Miguel O’Hara, o Homem-Aranha do ano 2099, já apareceu no Universo Normal no título “Superior Spider-Man”, e também tinha interagido com o tempo presente no antigo título “Exiles”. Com algum conhecimento científico (Parker é bioquímico, O’Hara é geneticista) e tendo adquirido os seus poderes já na idade adulta, serve perfeitamente para ocupar o lugar de um Aranha com experiência. E não é tudo, pois o amigo de Peter Parker, Flash Thompson, é o actual hospedeiro do simbionte alienígena Venom, tendo recentemente integrado os Thunderbolts e os Vingadores, podendo perfeitamente fazer homenagem ao seu ídolo, aproveitando a sua experiência militar (que não é uma invenção nova, Thompson foi enviado para o Vietname nas histórias dos anos 70). Finalmente, um dos malfadados clones também está em actividade. O amoral Kaine está menos amoral e nos últimos anos tem assumido a face do Aranha Escarlate, antes usada pelo clone Ben Reilly. Opções não faltam para substituir o Homem-Aranha e deixar Peter Parker longe da confusão pós-humana que tomou conta do Universo Normal. Porque Parker merece.

Texto:
Paulo Costa

























Foi mais uma excelente crónica do Paulo Costa. E pelos vistos haverá mais "partes" sobre o tema Bendisverso... lol

Podem ver todos os artigos escritos pelo Paulo Costa simplesmente clicando em cima do nome dele.

Boas leituras
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