Châmume Silêncio i sô bontipu
Houve alguns livros que fizeram a minha transição de uma BD mais leve e normalmente menos densa de conteúdos, para uma BD mais adulta tanto no aspecto gráfico como nos respectivos conteúdos.
Este livro foi um deles. Silêncio!
Silêncio em conjunto com o Incal, Bela mas Perigosa, Vagabundo dos Limbos e Corto Maltese (entre outros), fizeram esta transição. Fizeram-me ver que a BD não era apenas Tintin, Lucky Luke, Homem-Aranha, Asterix, Super-Homem, etc, etc… E na altura foi um choque!
Silêncio foi o primeiro livro que eu li com agrado a preto e branco, só depois deste tive vontade de pegar em Corto Maltese nesse registo!
Silêncio é a todos os níveis um livro impar. Uma narrativa gráfica perfeita e um argumento fantástico, ambos servidos por um desenho fino e elegante. É um daqueles livros que não deixa ninguém indiferente após a sua leitura, e quando isto acontece pode-se considerar estarmos na presença de uma grande obra.
Didier Comès sempre teve um “fraco” pelo fantástico, bruxaria, esoterismo e natureza. Quando falo de natureza entenda-se os dois sentidos, a natureza humana e a natureza ambiente que nos rodeia. Silêncio tem estes itens todos, magistralmente entrelaçados.
No aspecto gráfico leio muitas vezes que é uma mescla de Hugo Pratt, Tardi e Forest. Permitam-me não concordar. O estilo é Didier Comès. Reconheço o seu traço em qualquer livro dele, daí dizer que Comès é Comès! Não vale a pena rotular…
O domínio do preto e branco neste livro é absoluto, Comès consegue obter o máximo de expressividade com este registo, sendo algumas páginas extrmamente belas. As figuras humanas são desenhadas com um traço fino, salientando e exagerando por vezes os pormenores tipo de cada personagem (nariz, boca, cabelo, gordura) por oposição aos planos envolventes, sejam estes casas, animais ou simplesmente paisagens, onde já tem um traço mais forte, carregado e detalhado.
Silêncio poderia ser apenas uma história de amor. Mas não é.
Silêncio consegue transmitir, e mostrar, tantos sentimentos perversos que habitam dentro do ser humano que quase nos distraímos de uma relação de amor entre um mudo e uma feiticeira.
O medo de quem é diferente, que sai fora dos padrões aceites, é aqui misturado com rancores e ódios, covardia e claro, a maldade pura e dura! Felizmente isto é temperado com amor, amizade e compreensão trazida pelos artistas de um circo, também eles considerados “freaks” na margem da sociedade!
A intriga passa-se numa pequena e pacata aldeia rural. O mundo desta aldeia muda quando um casal de ciganos fugindo das tropas invasoras alemãs acaba por obter refúgio ali. Claro que este acolhimento tão fácil tinha um objectivo… a força de trabalho desta aldeia estava depauperada devido à guerra, os jovens para trabalhar eram poucos… estavam na guerra!
Mas tudo muda com uma relação entre o cigano e uma jovem prometida ao homem mais rico do lugarejo, ausente na guerra! Mas um dia... ele volta!
É aqui que começa a tragédia. Um cigano morto, uma cigana ostracizada e temida pela populaça, e um casamento com um filho bastardo e deficiente: Silêncio!
Silêncio, o mudo e atrasado… um jovem intrinsecamente bom, explorado e maltratado pelo assassino de seu pai, encontra algo mais na sua vida quando encontra a feiticeira! Sentimentos de vingança e amor coabitam nestas duas almas…
Quanto ao resto desejo-vos uma boa leitura deste livro. Não é fácil encontrar esta edição da Bertrand a preto e branco, mas está também publicado pela ASA em dois volumes de capa dura e a cores. Penso que perdeu alguma alma com a cor, mas penso que esta opção obedeceu a directrizes comerciais… o grande público gosta de livros coloridos!
:D
O Leituras de BD recomenda esta leitura!
Hardcover
Editado em 1983 pela Bertrand e em 2003 pela ASA
Criado por: Didier Comès
Nota 11 em 10







