Mostrar mensagens com a etiqueta Didier Comès. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Didier Comès. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 12 de março de 2013

Silêncio


Châmume Silêncio i sô bontipu

Houve alguns livros que fizeram a minha transição de uma BD mais leve e normalmente menos densa de conteúdos, para uma BD mais adulta tanto no aspecto gráfico como nos respectivos conteúdos.
Este livro foi um deles. Silêncio!

Silêncio em conjunto com o Incal, Bela mas Perigosa, Vagabundo dos Limbos e Corto Maltese (entre outros), fizeram esta transição. Fizeram-me ver que a BD não era apenas Tintin, Lucky Luke, Homem-Aranha, Asterix, Super-Homem, etc, etc… E na altura foi um choque!
Silêncio foi o primeiro livro que eu li com agrado a preto e branco, só depois deste tive vontade de pegar em Corto Maltese nesse registo!

Silêncio é a todos os níveis um livro impar. Uma narrativa gráfica perfeita e um argumento fantástico, ambos servidos por um desenho fino e elegante. É um daqueles livros que não deixa ninguém indiferente após a sua leitura, e quando isto acontece pode-se considerar estarmos na presença de uma grande obra.
Didier Comès sempre teve um “fraco” pelo fantástico, bruxaria, esoterismo e natureza. Quando falo de natureza entenda-se os dois sentidos, a natureza humana e a natureza ambiente que nos rodeia. Silêncio tem estes itens todos, magistralmente entrelaçados.

No aspecto gráfico leio muitas vezes que é uma mescla de Hugo Pratt, Tardi e Forest. Permitam-me não concordar. O estilo é Didier Comès. Reconheço o seu traço em qualquer livro dele, daí dizer que Comès é Comès! Não vale a pena rotular…
O domínio do preto e branco neste livro é absoluto, Comès consegue obter o máximo de expressividade com este registo, sendo algumas páginas extrmamente belas. As figuras humanas são desenhadas com um traço fino, salientando e exagerando por vezes os pormenores tipo de cada personagem (nariz, boca, cabelo, gordura) por oposição aos planos envolventes, sejam estes casas, animais ou simplesmente paisagens, onde já tem um traço mais forte, carregado e detalhado.

Silêncio poderia ser apenas uma história de amor. Mas não é.
Silêncio consegue transmitir, e mostrar, tantos sentimentos perversos que habitam dentro do ser humano que quase nos distraímos de uma relação de amor entre um mudo e uma feiticeira.
O medo de quem é diferente, que sai fora dos padrões aceites, é aqui misturado com rancores e ódios, covardia e claro, a maldade pura e dura! Felizmente isto é temperado com amor, amizade e compreensão trazida pelos artistas de um circo, também eles considerados “freaks” na margem da sociedade!

A intriga passa-se numa pequena e pacata aldeia rural. O mundo desta aldeia muda quando um casal de ciganos fugindo das tropas invasoras alemãs acaba por obter refúgio ali. Claro que este acolhimento tão fácil tinha um objectivo… a força de trabalho desta aldeia estava depauperada devido à guerra, os jovens para trabalhar eram poucos… estavam na guerra!

Mas tudo muda com uma relação entre o cigano e uma jovem prometida ao homem mais rico do lugarejo, ausente na guerra! Mas um dia... ele volta!
É aqui que começa a tragédia. Um cigano morto, uma cigana ostracizada e temida pela populaça, e um casamento com um filho bastardo e deficiente: Silêncio!
Silêncio, o mudo e atrasado… um jovem intrinsecamente bom, explorado e maltratado pelo assassino de seu pai, encontra algo mais na sua vida quando encontra a feiticeira! Sentimentos de vingança e amor coabitam nestas duas almas…


Quanto ao resto desejo-vos uma boa leitura deste livro. Não é fácil encontrar esta edição da Bertrand a preto e branco, mas está também publicado pela ASA em dois volumes de capa dura e a cores. Penso que perdeu alguma alma com a cor, mas penso que esta opção obedeceu a directrizes comerciais… o grande público gosta de livros coloridos!
:D
O Leituras de BD recomenda esta leitura!

Hardcover
Editado em 1983 pela Bertrand e em 2003 pela ASA
Criado por: Didier Comès
Nota 11 em 10
Deixa o teu comentário

domingo, 10 de março de 2013

Autores: Didier Comès



A grande geração de desenhadores e autores que surgiu no eixo Bélgica, França, Suíça e Itália nos anos 60/70 está a desaparecer mesmo. Eu sei que a idade não perdoa, mas é uma pena ver-mos estes “grandes” que de algum modo enriqueceram a minha vida, desaparecerem um após o outro…


Dieter Hermann Comès nasceu na Bélgica bem no limite de várias culturas. O seu pai falava a língua alemã, a sua mãe o francês… Por isso mesmo o seu nome foi alterado na escola de Malmédy! O seu nome foi afrancesado para Didier Comès.
Mas as restrições não ficaram por aqui. Comès era canhoto, mas nos anos 40 ser canhota era coisa do Demo e então foi obrigado a utilizar a sua mão direita na escola. Assim passa a escrever com a mão direita, mas…
Mas a sua arte flui pela esquerda! A sua arte e desenho é intuitivo e natural, logo não há formatações que façam um artista desistir da sua maneira, do seu jeito.

Começa a trabalhar aos 16 anos numa empresa têxtil, mas é a musica que o liberta da monotonia deste trabalho. Chega à Banda Desenhada em 1968 pelo jornal “Le Soir”.
A sua primeira obra é publicada na “Pilote” em 1972: Ergun l’Errant. Esta marcará o início do percurso de um grande autor de BD!

Será na célebre revista “À Suivre” que o mundo o irá conhecer através da sua grande obra: Silêncio. Não mais parou de nos deslumbrar:

  • Ergün l'errant
  • Silence
  • Le Ombre du corbeau
  • La Belette
  • Eva
  • Le Arbre-cœur
  • Iris
  • Le Maison où rêvent les arbres
  • Les Larmes du tigre
  • Dix de Der

O seu estilo é peculiar, com um traço muito simples e fino, mas com painéis cheios de expressão e informação gráfica. O traço dele seduz sugerindo e não dando ao leitor um grafismo em que não reste imaginação ao leitor.
Os temas, bem... Comès gostava do fantástico! Gostava de caminhar junto aos nossos terrores, como bruxaria, repteis à solta e mentes loucas...
O seu preto e branco... o preto e branco de Didier Comès é fortíssimo, e mais não digo... experimente ler quem nunca leu!

Em português estão editadas as seguintes obras:

  • Silêncio (ASA e Bertrand)
  • As Lágrimas do Tigre (ASA)
  • A Árvore Coração (Meribérica)
  • Iris (Meribérica)
  • A Doninha (Meribérica)
  • A Casa onde as Árvores Sonham (Meribérica)

Como podem verificar, grande parte da obra deste grande autor/desenhador está traduzida. Quem não conhece aproveite!

E se alguém souber de mais algum livro traduzido para português que o indique para a informação ficar completa!
:)

Mais logo, se ainda tiver tempo farei um post sobre a sua obra mais emblemática: Silêncio!



Boas leituras

Deixa o teu comentário

Ilustração: A Doninha de Didier Comès



Didier Comès faleceu na Quinta-Feira passada. Mais um dos grandes que se foi...

Hoje deixo uma página para ilustrar este post, retirada da obra "A Doninha", e amanhã farei em sua homenagem um post sobre um dos livros que mais marcou a minha adolescência: Silêncio.

Até amanhã então!

Boas leituras
Deixa o teu comentário