- Brian
Existe um livro que eu nunca comprei no original (inglês) porque sempre tive a esperança de que fosse publicado em Portugal, numa das inúmeras colecções de “novelas gráficas” da Devir, mas nunca tal aconteceu, embora tivesse TUDO para figurar numa delas. Infelizmente o autor não é espanhol (sarcasmo), portanto logo aí perde muitas chances de fazer parte numa desses colecções. Estou a falar de Black Hole de Charles Burns.
A arte desse livro sempre me fascinou, e a história tem uma
premissa noir que eu adoro. Mas enfim, um dia destes tenho mesmo de o
comprar no original, porque há muito tempo (tempo demais) que tem lugar reservado
nas minhas estantes.
Então li a notícia da publicação de Final Cut pela
ASA e fiquei com meia dose de felicidade, visto que sempre pensei que Black Hole
fosse o livro introdutório por excelência de Charles Burns.
Mas não aconteceu assim. A ASA publicou em Fevereiro deste
ano esta obra de Burns, que remonta a 2024 no seu original. Esta edição da ASA,
Final Cut, é a compilação dos três livros da série que saiu com o título Dédales
(1, 2 e 3). Começou a ser publicada pela Cornélius (França) em 2019 e conclui
em 2023 com o 3º volume.
Voltando ao autor. Tem um estilo gráfico e uma qualidade que
me fascina, sobretudo no preto e branco. Daí esta minha fixação com a obra
Black Hole.
Burns é um autor já com alguma idade, vai fazer 71 anos este
ano, e o incrível é ele conseguir contar histórias sobre jovens que procuram
uma direcção na vida, mas colocando-se com uma visão bastante precisa dos anseios,
desejos e problemas próprios da idade, como se ele próprio fizesse parte do
grupo, e não como um adulto experiente contando histórias sobre esta etapa pós-adolescente.
Em Final Cut conta-se uma história com duas narrações, a de
Brian e a de Laurie.
Brian é um rapaz brilhante, mas extremamente inseguro, mostrando alguma
percentagem de autismo, ou simplesmente estados depressivos, e embora nunca
fosse dito qual era o seu problema, sabemos que não está a tomar a “medicação”
e que se alheia do mundo com muita frequência.
É um mundo complicado o de Brian, vive e cuida de uma mãe com problemas de
adição e comportamentos de insanidade mental.
A sua vertente artística é muito acentuada pela fraca delimitação entre o real e a fantasia, e os seus desenhos e edição de filmes são a prova disso. Brian respira filmes de terror “série B” por todo o lado, todos os filmes que faz com o seu amigo Jimmy são muito baseados em filmes deste género, e um deles (Invasion of the Body Snatchers) vai servir de fundo à sua última criação.
Laurie é uma bonita jovem, com o cabelo de um ruivo
deslumbrante, embora não faça ostentação da sua beleza. Tem muitas dúvidas iniciais sobre
o rumo da sua vida e sente-se muito intrigada por Brian. Os seus desenhos, a
sua “loucura”, as suas mudanças de humor fazem-na aproximar dele.
Irá ser a estrela do filme de Brian e Jimmy, embora aquele seja um projecto de
que ela não se sente segura de que irá realmente gostar, mas a jovialidade de
Jimmy, a estranheza de Brian e as loucuras da amiga Tina fazem-na aceitar.
No fim esta é uma história tão antiga como a Humanidade. Brian
ama Laurie e não lho consegue transmitir. Laurie não ama Brian e descobre
caminhos diferentes para percorrer na estrada da vida.
Mas no fim, é Brian que decide o final da relação, ou não fosse ele o editor…
Final Cut é o título certo.
Tudo isto assenta num trabalho artístico de alta qualidade! Tudo é bom no traço de Burns, os enquadramentos são maravilhosos, enfim… só
pegando no livro e olhando é que irão perceber do que eu estou a falar. Tenho a
certeza que qualquer pessoa que passe numa livraria, e abra este livro, se vai
sentir extremamente tentada a comprá-lo apenas vendo a arte de Charles Burns.
Já agora o final do livro não é daqueles que eu gosto. Ok, é um final. Mas é um final que sabe a pouco e bastante abrupto. Nas páginas finais andei folha para trás, folha para a frente, à procura de algo porque senti que falta ali qualquer coisa que “acabe” mesmo o livro. Não encontrei 🤷🏻♂️
Esta edição em capa dura da ASA é muito cuidada. A gramagem
e o tipo de papel são completamente adequados à cor e desenho de Burns. Não
achei nenhuma falha nesta edição, inclusivamente as guardas deste livro estão
maravilhosas.
O pecado do livro está na má tradução de títulos de filmes existentes no mercado, que é uma coisa que não faz sentido tipo "Os Invasores de Corpos" (Invasion of the Body Snatchers) “A
Última Sessão de Cinema” (título brasileiro) em vez de “A Última Sessão” (The Last Picture Show) relativos a um filmes que são importantes para todo o cenário desta obra.
Deixo aqui o trailer do filme de 1978, Invasion of the Body Snatchers:
Quem ler o livro irá perceber porque coloquei este trailer 😉
O Leituras de BD recomenda este livro
Boas leituras




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