sexta-feira, 17 de julho de 2015

A importância das adaptações de banda desenhada



Desde que a banda desenhada deu origem a um indústria produtora que começou a aparecer material adaptado para outros meios. Nessas adaptações, surgiram muitos elementos estranhos à propriedade original, que acabaram por ter repercussões nas histórias de BD. A kryptonita, por exemplo, surgiu no programa de rádio do Superhomem.

A banda desenhada parece surgir como subordinada nesta relação. Como se o cinema, a televisão e a rádio fossem sérios, e a BD não. Mas a verdade é que também influenciou muitos outros personagens de ficção. Tanto que alguns destes, por vezes, vêem as suas verdadeiras origens escondidas e são considerados também eles heróis da BD. São personagens que viram algumas das suas características mais importantes surgir neste meio.

Tentei descobrir quando surgiu a primeira adaptação de outro meio à banda desenhada. Embora não tenha certeza absoluta, quer-me parecer que é uma tira de jornal, lançada em 1904, com o nome Queer Visitors from the Marvelous Land of Oz. A adaptação deve ter sido relativamente fácil, uma vez que L. Frank Baum lançou as histórias do mundo de Oz como livros ilustrados. Aliás, enquanto Baum lançava a tira de jornal com arte de Walt McDougall, o seu ilustrador em O Feiticeiro de Oz, William Denslow, lançou, quase em paralelo, a sua própria tira de jornal, chamada Scarecrow and the Tinman. Denslow estava de relações cortadas com Baum desde 1902, pelo que o segundo livro, O Maravilhoso Mundo de Oz, foi ilustrado por John R. Neil, tal como todos os seguintes, mas Denslow manteve os direitos autorais.


Seria preciso esperar mais 25 anos para ver a BD influenciar com sucesso um personagem noutro meio. No dia 7 de Janeiro de 1929, duas tiras de jornal tiveram estreia simultânea, Tarzan e Buck Rogers. Tarzan viu a BD ser uma grande influência a nível visual. Tinha sido o personagem principal do livro Tarzan dos Macacos, seralizado em 1912 na revista pulp All-Story Magazine, antes de ser compilado em livro. A primeira adaptação cinematográfica chegou em 1918, mas, para os fãs modernos, a sua aparência nada teria de familiar. Foi na tira de jornal, ilustrada inicialmente por Hal Foster, que surgiu o visual mais conhecido, com cabelo curto, pele bronzeada e trajes mínimos. Em 1929 ainda foi lançado um filme, Tarzan the Tiger, com o actor Frank Merrill com a mesma caracterização nas ilustrações dos romances. Mas, em 1932, Johnny Weissmuller representou o papel de Tarzan já com a caracterização idealizada por Foster. A popularidade dos filmes protagonizados pelo atleta olímpico foi tanta que este visual ficou na mente popular como a forma oficial de Tarzan até aos anos 80.


Buck Rogers, por seu lado, retira vários elementos de história, principalmente de elenco, da adaptação à banda desenhada. O personagem surgiu na história “Armageddon 2419 AD”, escrita por Philip Francis Nowlan e publicada em 1928 na revista pulp Amazing Stories. Até o nome Buck apareceu primeiro na tira de jornal, visto que na versão literária o herói tinha o primeiro nome Anthony. Além dos inimigos Han e da namorada Wilma Deering, quase tudo foi reinventado por Nowlan e pelo artista Dick Calkins na banda desenhada. Entre estes detalhes incluiam-se membros do elenco, como o cientista Dr. Huer, os vilões Killer Kane e Ardala, o pirata Black Barney e o irmão de Wilma, o cadete Buddy Deering, que assumiu a posição típica de assistente juvenil. Nowlan apenas escreveu mais uma história literária com Buck Rogers, “The Airlords of Han”, mas os elementos criados na tira de jornal foram usados na série de TV de 1950 e no filme e série de TV de 1979, esta tendo Gil Gerard no papel principal. Não se pode ignorar que é igualmente importante a influência directa de Buck Rogers na criação da tira de jornal Flash Gordon, pois muitos elementos podem ser decalcados de uma para a outra. 



Conan é outro personagem que deve o seu sucesso actual à banda desenhada. Criado por Robert E. Howard na história “The Phoenix in the Sword”, o bárbaro nascido da terra fictícia pré-cataclísmica da Ciméria foi publicado em várias histórias curtas na revista pulp Weird Tales, entre 1932 e 1936, até ao suicídio do seu autor. Várias histórias foram compiladas nos anos seguintes pelo executor literário de Howard, o também escritor L. Sprague de Camp, a partir dos anos 50, quando o visual definitivo de Conan foi estabelecido pelo artista de BD, Frank Frazetta, na capa da edição da Lancer Books de Conan the Usurper, e nas edições subsequentes. Mas embora esta série de livros tenha sido um sucesso de vendas, Conan pode agradecer a sua longevidade junto do público à banda desenhada publicada pela Marvel. Roy Thomas lançou a revista Conan the Barbarian, com arte primeiro de Barry Windsor-Smith e depois de John Buscema, em 1970, à qual se seguiu a revista a preto e branco, Savage Sword of Conan, para um público mais adulto. A Marvel continuou a publicar histórias do bárbaro até 2000, e foi esta publicação contínua que levou à criação dos filmes Conan, o Bárbaro e Conan, o Destruidor, em 1982 e 1984, respectivamente, ambos com o actor Arnold Schwarzenegger.



Apenas merece um aparte apontar que, durante estes 30 anos, Conan teve a maior publicação contínua de BD de uma personagem adaptada de outro meio, com uma excepção, a Disney, que quase faz esquecer que o Rato Mickey, o Pato Donald e muitos outros surgiram no cinema antes de passarem para a BD. O Tio Patinhas é o primeiro caso de um personagem de sucesso na Disney que surgiu na banda desenhada.


Hora de avançar para os anos 80. Quando a Hasbro necessitou de ressuscitar a linha de bonecos de acção G.I. Joe, pediu ajuda à Marvel. A linha criada em 1982 viu G.I. Joe deixar de ser um soldado para passar a ser uma força paramilitar. Este conceito, tal como as personalidades e histórias pessoais de todos os personagens, foi criado por Larry Hama e Archie Goodwin, e desenvolvido na revista de banda desenhada, que foi publicada até 1994, com Hama como escritor. A Hasbro resolveu trabalhar com a Marvel novamente em 1984, em que Jim Shooter, Denny O’Neil e Bob Budiansky fizeram o mesmo com os Transformers. Ao contrário de G.I. Joe, que tinha uma linha mais unificada, os editores da Marvel tiveram que criar personalidades para juntar designs de linhas diferentes, na sua maioria da Micro Change e da Diaclone, mas também alguns da Macross e Dorvack. Elementos como o planeta Cybertron e a Matriz de Liderança dos Autobots surgiram primeiro na BD antes de serem adaptados aos desenhos animados e ao cinema.

Nestas circunstâncias, é inegável a importância da banda desenhada em algumas das propriedades intelectuais mais famosas do Século XX, que estão ainda todas no activo.





Este texto foi originalmente concebido para o programa de rádio Bandas, de Nuno Pereira de Sousa, e foi transmitido no dia 24 de maio de 2014.

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