segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

A Palavra dos Outros: Uma breve história da identidade secreta – Parte IV por Paulo Costa


Na minha opinião uma das abordagens mais interessantes que se fizeram a algo relacionado com BD neste blogue. A quem não leu as outras três partes, eu deixo os links no final. Vale muito a pena ler!

Fiquem com o Paulo Costa:

Uma breve história da identidade secreta – Parte IV


Durante os anos 70 e 80, os heróis da DC tinham como costume encontrar-se ocasionalmente para enfrentar vilões em conjunto, com destaque para os crossovers anuais da Liga da Justiça da Terra-1 com a Sociedade da Justiça da Terra-2. Na Marvel, quando se encontravam, era para terem confrontos físicos. Foi este, aliás, o ímpeto da mini-série “Desafio dos Campeões”, lançada em 1982, uma reciclagem de uma tentativa de criar uma história à volta dos Jogos Olímpicos de 1980.

Tudo começou a mudar poucos anos depois. A DC tinha uma boa base para criar uma sociedade de pós-humanos, uma vez que a maior parte dos heróis já pertencia a grandes equipas quando a editora lançou “Crise nas Infinitas Terras”, uma mini-série destinada a limpar a complicada cronologia do universo fictício. Na Terra-1, a segunda geração de heróis tinha juntado forças nos Novos Titãs, originalmente fundados pelos assistentes juvenis dos membros da Liga da Justiça. Na Terra-2, o mesmo se passava com os filhos da Sociedade da Justiça, que tinham criado a sua própria equipa, a Corporação Infinito. As ligações familiares e de legado heróico (com a fusão dos dois mundos, passaram a haver dois Flashes, dois Lanternas Verdes, dois Átomos e dois Starmen em actividade) facilitaram a criação de laços entre os vários super-heróis, abrindo-lhes a hipótese de formarem uma comunidade própria ou até uma subcultura. Infelizmente, os escritores da época mostraram-se reticentes em abandonar elementos tradicionais destas histórias, nomeadamente a conjugação de uma vida normal com a de vigilante e a identidade secreta como forma de protecção de amigos e família. Os próprios escritores eram protectores do seu material, evitando crossovers o mais que podiam, para poderem contar as histórias que tinham em mente, mesmo quando existiam heróis como o Flash, o Batman e o Homem-Animal que mantinham títulos próprios ao mesmo tempo que eram membros de várias encarnações da Liga da Justiça.


Na Marvel, a situação evoluiu de modo diferente. A mini-série “Guerras Secretas” surgiu para responder a duas necessidades: criar uma linha de bonecos de acção com personagens da editora, e atender aos pedidos constantes de fãs que queriam ver uma história com todos os heróis envolvidos. Mesmo nos anos 80, não era tarefa fácil, como tinha ficado comprovado no “Desafio dos Campeões”. Em “Guerras Secretas”, foi escolhido um número limitado de heróis e vilões para participarem no conflito, mas a história abriu caminho para forjar relações que não tinham existido em 25 anos de publicação, com destaque para o facto de que os Vingadores e o Quarteto Fantástico raramente tinham trabalhado com os X-Men, notando-se ainda que o Homem-Aranha, apesar de fazer dupla regular com outros heróis no título “Marvel Team-Up”, não tinha qualquer noção de como trabalhar em equipa. Os crossovers acabaram por ser um sucesso de vendas para as duas editoras, que repetiram a fórmula anualmente, mesmo quando os escritores dos títulos reclamavam de ter que colocar as suas próprias histórias em pausa.


À medida que a tecnologia progredia, desenhos animados começaram a basear-se no visual dos heróis da banda desenhada. Nos anos 80, fabricantes de brinquedos aproveitaram a indústria de animação como forma de publicitar várias linhas de bonecos de acção virados para um público masculino pré-adolescente. Muitas delas, como “G.I. Joe”, “M.A.S.K.”, “Centuriões”, “Zona Espiral” e “Silverhawks”, tinham como personagens principais equipas militares ou paramilitares, e algumas delas acabaram por ser adaptados para banda desenhada, ajudando a manter a indústria americana viva numa época em que as principais editoras tinham começado a abandonar as bancas, preferindo as vantagens condições financeiras do mercado directo de lojas especializadas. “G.I. Joe”, em especial, esteve 13 anos em publicação, gerando publicações paralelas, recrutando novos leitores e influenciando o modo como eram contadas histórias noutros títulos.

Na DC teimava-se em tratar os heróis de um modo tradicional, principalmente no caso dos mais conhecidos, que tinham marcas registadas a proteger. Apenas as organizações Esquadrão Suicida e Checkmate tiveram algum sucesso nas respectivas revistas, mas as equipas como a Liga da Justiça e os Novos Titãs continuaram a ser compostas por heróis que, regra geral, protegiam a sua identidade secreta, mesmo quando todos os seus colegas as conheciam. De certo modo, o conceito continuava a ser necessário, como Kyle Rayner, o novo Lanterna Verde, pôde comprovar quando a sua namorada foi assassinada pelo vilão Major Força. A Marvel, por seu lado, evoluiu naturalmente no caminho da militarização. Vários editores permitiram a artistas tomarem as decisões da direcção da história, parecendo que, quanto mais famosos eram, como no caso de Todd McFarlane, Jim Lee e Rob Liefeld, menos compreensão tinham de como escrever.


O interesse destes dois últimos no visual paramilitar acabou por influenciar a direcção de títulos como os X-Men e os Vingadores. Os primeiros abandonaram completamente a sociedade civil depois de terem sido dados como mortos, e as revistas ligadas ao grupo mutante começaram a ficar fechadas em si. Ninguém tinha identidades secretas, porque ninguém tinha vidas normais. Peter David foi noutra direcção ao acabar com as identidades secretas dos membros do X-Factor, um grupo de associados dos X-Men, quando esta equipa passou a ser gerida directamente pela Comissão de Actividades Super-Humanas do Governo americano. Os Vingadores, por seu lado, tinham muitos membros com identidades públicas, levando muitos dos outros a deixarem de se preocupar com isso, como acabou por acontecer com a Mulher-Hulk, o Falcão e o Cavaleiro Negro. Entretanto, o Homem de Ferro e o Capitão América cada vez mais deixaram de ter vida privada, eliminando a necessidade de ter identidades secretas, ainda que estas não fossem reveladas publicamente.

Entretanto, e apesar dos escritores desprezarem a ideia, os crossovers sucediam-se em ambas as editoras, uns atrás dos outros, durante os anos 90, ora envolvendo as publicações anuais, ora juntando quatro ou mais revistas, por vezes completamente sem relação umas com as outras, durante alguns meses, obrigando a comprar todas para compreender as histórias. Os heróis congregavam-se regularmente, em caso de crise, nos quartéis-generais uns dos outros, e alguns escritores passaram a dedicar espaço às relações entre heróis. Mark Gruenwald criou mesmo um jogo de poker na revista “Marvel Two-in-One”, em que o Coisa convidava regularmente os seus colegas, incluindo Nick Fury, Wolverine, Capitão América, Magnum e quem mais estivesse disponível. Noutras histórias, o Wolverine descobriu, acidentalmente, a identidade do Homem-Aranha, enquanto este revelou-a por vontade própria ao Demolidor, que reciprocou.


A ideia de universo partilhado ficava assim cristalizada. Nada do que um grupo ou herói fizesse podia ser ignorado, porque teria que ter repercussões nas vidas dos outros heróis de cada editora. O próximo passo, no entanto, acabou por ser dado fora da Marvel e da DC, após a criação da Image.

Texto: Paulo Costa

Se assim o desejarem, basta clicar em cima do nome do Paulo Costa e terão acessíveis todos os textos enviados por ele para o Leituras de BD.
Ficam os links das outras três partes:

Uma breve história da identidade secreta – Parte I

Uma breve história da identidade secreta – Parte II

Uma breve história da identidade secreta - Parte III

Divirtam-se!

Boas leituras
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