sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Palmas para o Esquilo


A loucura é o abismo sob a ponte da imaginação.
A imaginação é luz.
Mas basta um fulgor para encadear e empurrar para a escuridão.

Aprendemos a usar os instrumentos da criação.
Aprendemos a arte de fazer arte.
Nem todos são capazes de aguentar o calor intenso dessa fornalha… e dedicam as vidas a apagar o fogo. As centelhas são mais fáceis de extinguir.
Nada é mais miserável que esse serviço.
Nada é mais abjecto.
Porque nada é mais cintilante que o fogo da criação.
Nada brilha com mais radiância.
E, no entanto, nada é mais frágil que esse fogo. Nada é mais efémero.

David Soares
in Palmas para o Esquilo

Desculpem-me esta introdução longa com a transcrição de dois momentos da escrita de David Soares nesta Banda Desenhada.
Acho que são importantes, e emblemáticos, neste ensaio sobre imaginação e loucura.

Tenho milhares de livros de BD. E quem me conhece sabe que a minha Bedeteca é composta por tudo quanto é tendência ou género nesta arte. Mesmo. Até Manga alternativa tenho!
Mas este livro é único. Foi o livro que exigiu mais de mim como leitor, tanto ao nível do vocabulário, como na apreensão das ideias apresentadas. Estou a escrever isto positivamente. As ideias estão lá, a transmissão não é fácil, propositadamente, penso eu.

Já li livros (aliás, tenho) que me foram difíceis ao nível do entendimento, mas no fim não me transmitiram nada. Nem uma única emoção, sem ser aquela “porque é que eu gastei dinheiro nesta bosta de um pseudo-intelectual?”

“Palmas para o Esquilo” é diferente. Primeiro porque o David Soares não é um pseudo-intelectual, como lavram por aí muitos autores ditos “alternativos”. O David Soares é um escritor com ideias, e não gosta que seja fácil ao leitor entender o que nos quer transmitir. Ele dá trabalho ao leitor. Vocabulário puxado? Sim. Metáforas a cada esquina? Sim. Cultura? Sim.

Se procuram um livro de ideias fáceis, este não é o vosso livro.
Este é um excelente livro do David Soares e do Pedro Serpa, mas obriga o leitor a trabalhar. Se alguém quiser provar a outrem que a BD não é para crianças, ofereçam-lhe este livro.

David Soares não caiu na armadilha do livro “pesado”. O livro é denso de ideias, mas não pesado.
Cheguei a casa com o livro e imediatamente o li. Disse duas ou três palavras no mais verdadeiro vernáculo que a língua portuguesa tem ao seu dispor, coloquei o livro de lado.
O meu exercício como leitor deste livro foi feito a quatro tempos, e do primeiro já falei. Foi o primeiro impacto, impacto este que me disse que teria de o ler outra vez.
A minha segunda leitura foi feita da seguinte maneira: Apenas li as caixas de texto sem olhar aos balões de fala, e com um dicionário à minha frente. Aprendi algumas (muitas) palavras novas! Isto acompanhando sempre a narrativa gráfica do Pedro Serpa.
De seguida (e foi difícil ignorar as caixas de texto) li os balões de texto em conjunto, claro, com os desenhos do Pedro Serpa.
A última leitura trouxe-me o entendimento geral (não posso dizer total) do livro como um todo, e neste momento sim. Eu li “Palmas para o Esquilo”!

David Soares transporta-nos para um universo em que a imaginação, sempre tão frágil quando contraposta a alguma dificuldade, é facilmente transformada em loucura.
O cercear da imaginação pode amputar logo de início o brilho da mente livre, e num caso mais extremo, transformá-la em demência.

A história passa-se num asilo, e com o auxílio de flashbacks o leitor pode verificar as etapas que podem levar à loucura… a fronteira por vezes é tão ténue que basta um pequeno desequilíbrio numa mente em formação, ou simplesmente um momento disruptor que faz balançar o equilíbrio mental para o lado negro…

Falei em etapas, mas posso dizer em círculos… sim porque o círculo imaginação-loucura tem um problema. Só se quebra com a morte, e a morte neste caso é libertadora. E há quem ache esse tipo de morte tão libertador, que ensaia de seguida um voo para a liberdade… fatal? Ou libertador?

Eu não vou repetir o que toda a gente diz sobre os desenhos do Pedro Serpa. Blá-blá-blá falsa simplicidade, blá-blá-blá não é fácil atingir aquele grau de singeleza blá-blá-blá…
O que eu posso dizer é que o Pedro Serpa apresenta SEMPRE (aconteceu n’o pQUENO dEUS cEGO – Lembram-se daquela splash page com o dragão?) imagens de uma força enorme. Não é em todas as páginas, mas o efeito emocional que provoca de repente ver a espaços uma imagem tão forte e plena de significado, vale tudo. Existem três páginas super simples e com uma força tão brutal para quem está embrenhado a sério no livro, que eu tenho de lhe tirar o meu chapéu (eu não uso chapéu, mas façam de conta que tenho um…). E sim, o Pedro Serpa tem uma estilo muito próprio de desenhar, quase naive, que se adapta muito bem a estilo de escrever do David Sores.

O lettering esteve a cargo do Mário Freitas, assim como o design do livro, e eu nem vou comentar nada. Quem adquirir a obra, depois diga aqui nos comentários.
;)

Como publicação. A Kingpin cada vez mais está a subir a fasquia da qualidade, e tiragens, das suas publicações. Este é um bom exemplo! Impressão off-set, e um design muito bom de capa e badanas!

Já agora, amanhã é o lançamento oficial deste livro na loja da Kingpin, e os autores estarão presentes para autógrafos. E já agora, para quem não leu, no post de lançamento deste livro aqui no Leituras de BD, foi feita uma pequena entrevista aos autores, se quiserem visualizar e ler cliquem no link abaixo:
Lançamento Kingpin: Palmas para o Esquilo (entrevista a David Soares e a Pedro Serpa)

Boas leituras

Softcover
Criado por: David Soares e Pedro Serpa
Editado em 2013 pela Kingpin
Nota: 9 em 10

2 comentários:

  1. Obrigdo pela dica, muito bom post , vou seguir ...

    ResponderEliminar
  2. vegetazzz
    É um livro que obriga o leitor a trabalhar. Aconselho-te um dicionário para uma primeira leitura, depois a releitura fica muito mais fácil.
    ;)

    ResponderEliminar

Bongadas

Disqus Shortname

sigma-2

Comments system

[blogger][disqus][facebook]