quinta-feira, 10 de maio de 2012

A Palavra dos Outros: Uns pensamentos sobre o Anicomics por Paulo Costa

Ainda o Anicomics!
Mas desta vez é a opinião do Paulo Costa, não sobre o Festival em si, mas alguns pensamentes que lhe perpassaram pela cabeça enquanto lá esteve.
Então fiquem com o desabafo pensativo e interrogativo do Paulo:

“Olá, o meu nome é Paulo e sou fã de super-heróis!”

Quase parece uma introdução nos Alcoólicos Anónimos. Mas tem razão de ser. É que no passado fim-de-semana foi a Anicomics, um dos poucos eventos no país que merecem o nome “convenção”. E isto é bom. Não estou interessado em “festivais” nem em “exposições”. Gosto da minha BD à americana e os americanos fazem convenções, onde os fãs se juntam para falar com os amigos, com os desconhecidos e também com os autores.
Não me apetece tecer qualquer comentário sobre o sucesso do festival. Quero apenas falar de algo que vi, que é completamente alheio à organização. Aliás, se há um problema, a culpa é minha. Minha e de outros como eu. É que num evento chamado Anicomics, a julgar pelo público, há mais “ani” que “comics”. O que não é verdade. Dois dos autores convidados trabalham ou trabalharam recentemente para a Marvel Comics, e um deles foi publicado na Vertigo. Há dois meses, eu não fazia ideia quem eram Marco Checchetto e Davide Gianfelice. Mas se trabalhavam para o mercado americano, eu estava interessado em ouvi-los, pois o que tivessem para dizer seria sempre familiar.
Foi o público que pareceu fazer pender a balança para o lado da cultura japonesa. Afinal, estava lá muita gente mascarada de desenhos animados japoneses, alguns com indumentárias que de certeza demoraram muito tempo a fazer. Os fãs de manga e anime parecem gostar de mostrar o seu apreço pelas suas séries e personagens preferidos. Parece quase motivo de orgulho. São otaku. De acordo com a Wikipedia, o termo otaku é derivado de um termo que designa uma casa ou família. E entendo que uma pessoa tenha orgulho na sua família.
Já eu (e os outros como eu) pertenço à subcultura “nerd”. Não à “geek”, pois há uma diferença. Para ser geek, é preciso ter conhecimentos científicos ou numa área tecnológica (quanto mais especializados melhor), não basta ter um interesse obsessivo em cultura pop centrada em ficção especulativa.
Por isso, sou um nerd. E talvez eu (e os outros como eu) acabe por levar demasiado a fundo o comportamento típico de um nerd. É que os nerds têm vergonha de se mostrar fora do seu meio-ambiente, e gostam de ser assim, para pensar que são diferentes e especiais. Demarcamo-nos assim, como se nos ríssemos a guardar um segredo que só nós conhecemos.
Dos mascarados, também vi um Deadpool, uma Poison Ivy e uma Harley Quinn. Tudo bem. Mas era quase tudo japonês. Os fãs de manga e anime tiveram um miniconcurso que incluía testes de conhecimento mas também teatro amador. Tiveram karaoke e concurso de máscaras. Até comeram ramen (essa parte não percebi bem porquê. Sempre havia Pocky?). E nós tivemos a conferência, a exposição e os autógrafos. E falámos. Gostamos muito de falar. Nem sempre para dizer bem. É outra diferença entre o otaku e o nerd. O otaku gosta de mostrar aquilo que gosta, o nerd perde tempo a criticar aquilo que odeia. Ainda me lembro da época em que era divertido dizer mal do Rob Liefeld…
Por isso, acho que tenho alguma inveja da energia com que os otaku se entregam ao seu hobby e como os outros fãs aderem em massa e com gosto a qualquer evento, por mais pequeno que seja. Não que o Anicomics não tenha sido divertido, porque foi. Mas se calhar queria ter-me divertido mais um pouco, e acho que podia ter contribuído para isso, tal como os otaku fizeram por si próprios. Ainda tenho que descobrir como. Acho que tenho um ano para pensar nisso.

Paulo Costa

Confesso que concordo e penso como ele em muitos aspectos. A comunidade que gosta de Comics em Portugal é envergonhada, e até se ri desdenhosamente muitas vezes em relação aos Cosplayers Manga/Anime! Esquecem-se que o Cosplay nasceu nos EUA com os Comics há muitos anos. Aliás se virem fotografias das Comicons norte-americanas verão que o Cosplay é o prato do dia, mas com personagens dos comics!
Fico com o Paulo...
"Ainda tenho que descobrir como. Acho que tenho um ano para pensar nisso."
:)

Boas leituras



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