segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Entrevista: Maria José Pereira



Maria José Pereira é uma personalidade incontornável da Banda Desenhada em Portugal.
Sempre esteve ligada à edição em grandes editoras portuguesas, deixando a sua marca indelével na defunta Meribérica e na ASA (pré e pós Leya).

Depois de anunciar a sua saída da ASA, no Festival Internacional de BD de Beja, para o dia 12 de Julho passado, passou a trabalhar para outra grande editora no dia 1 de Agosto. O que sairá daí no futuro... bem, logo se vê!

Conheça melhor esta editora intrinsecamente ligada à BD em Portugal; com personalidade lutadora e super respeitada na Europa, tanto por artistas como por editoras. E isso eu sei porque fui testemunha in loco!

E espero que a montagem que fiz na foto de cima (tirada por mim em Angoulême, 2011) também seja do agrado da Maria José!


Entrevista a Maria José Pereira

1) Como te lançaste no mundo da Banda Desenhada? Ainda te lembras?
Não sou assim tão velha e tenho muito boa memória :)
Aprendi a ler com a BD que havia lá por casa (e havia bastante, tal como havia muita literatura). E quando a leitura em português esgotou, lembro-me de me deitar de barriga para baixo na sala de estar da nossa casa de Angola a consultar o dicionário. O objectivo era conseguir ler as BD’s que lá chegavam sobretudo em Francês.
Mais tarde, nos finais dos anos 70, comecei a precisar de “uns trocos” para a bica, o cinema, o tabaco... e lancei-me como tradutora freelancer. Fiz traduções para a Feriaque, para a Liber, para a Agência Portuguesa de Revistas, para a Meribérica... Tudo o que aparecia.
No entanto, só na década de 80, depois de ter passado por outros empregos (incluindo algum tempo numa agência de publicidade), é que fui parar por acaso ao departamento de BD da Meribérica.
E o acaso conta-se em duas linhas: a empresa onde trabalhava fechou, e eu voltei a tentar fazer traduções. Esta tentativa resultou na oferta de um lugar no departamento de BD da Meribérica.


2) Quais as personagens ou séries que mais te marcaram neste teu início de tua carreira na BD?
Quando comecei a trabalhar na Meribérica, estávamos a lançar a 1ª série da revista Selecções BD. Eu já tinha traduzido alguns livros do Bilal – na minha época de tradutora freelancer – e fiquei fascinada com a publicação (e vinda) do Bilal a Portugal salvo erro em 1988/89. Veio ele e o Claude Moliterni.
Da minha infância, lembro-me das personagens do Spirou Belga (algumas das quais “repesquei”): Spaguetti, Taka Takata, Iznogoud... No fundo, aquilo que eram então as séries “grande público”, próprias para a leitura de alguém com cerca de 9 anos num país onde não existia TV e os Jogos de Vídeo ou os PC ainda não tinham sido inventados (ao lê-las, sentia-me como no dia em que, pela rádio, soube que o homem tinha chegado à lua!).

3) Mas eu sempre ouvi dizer que tinhas um carinho muito especial por uma série: Asterix!
Onde cabe essa série nos teus afectos bedéfilos?
Cabe nos meus afectos maiores: nos afectos feitos de muitas memórias, de muita batalha e de muito gozo.
Deu muito gozo, porque tenho o privilégio de ter traduzido (ou co-traduzido) toda a colecção (inclusive o livro que vai ser publicado pela ASA este ano) e de ter pensado, desde 1990, muitas pequenas campanhas de marketing; de muita batalha, porque a minha vida de editora de Astérix é a vida de um editor que resiste “agora e sempre” e que, para isso, precisa de uma poção mágica da qual ninguém conhece a fórmula... mas que há, há!
E de afectos e cumplicidades: do Sr. Uderzo e de toda uma equipa da Hachette e da Albert René que sempre acreditou em mim, na minha força e que me apoiou – mesmo quando lancei o Astérix em Mirandês.
Sim, é verdade: a BD é a minha segunda pele. Algumas BD’s fazem parte da minha alma.

4) Como defines a tua passagem pela Meribérica?
Divido-a em duas fases: a primeira, que durou até 1999, em que a Meribérica era a minha casa, a “editora” onde estava como estivesse numa empresa que era minha, e os últimos dois anos em que o acaso quis que tudo se tornasse difícil para todos os que lá estavam.
A Meribérica foi para mim uma grande aprendizagem: em termos profissionais e em termos pessoais. Aprendi sobretudo que gostar das pessoas e do que se faz às vezes não chega. Aprendi a aceitar, a perdoar, e a perceber que o que somos hoje podemos não ser amanhã: a doença pode corroer-nos a alma e tornar-nos cruéis sem que disso tenhamos consciência. Aprendi que a nossa condição humana nos deve levar a sermos humildes.

5) Muita gente se interroga ainda hoje, para além de haver muitos e variados boatos sobre o assunto, sobre o porquê da queda dessa editora que tinha o mercado totalmente nas mãos. O que achas que despoletou, ou qual foi a verdadeira razão que levou o gigante Meribérica a cair estrondosamente?
Um dia escrevo uma trágico-comédia sobre a Meribérica. Nessa altura, esclareço tudo .
Mas olha que:
- A BD na Meribérica era uma fatia pequeníssima da facturação (o trabalho desenvolvido pelas pessoas que trabalhavam no departamento de BD só servia para criar notoriedade à empresa). Na realidade a empresa detinha um polo de livros (culinária, infantis, BD...) e um polo de revistas (TV Cabo, Tele-Culinária, Casa e Decoração...).
- A Meribérica era uma sociedade por quotas, cujo principal sócio detinha cerca de 95% do capital.
- Era também o sócio maioritário de uma série de agências de publicidade, agências de compra de meios, uma sociedade no Brasil, uma sociedade em França, um campo de Golf em Palmela... um... um... um...
- Não foi só a Meribérica que ruiu: infelizmente, ruiu “estrondosamente” tudo. E curiosamente, antes da Meribérica.
Explicação?
Só posso dar-te a minha perspectiva (que pode não ser a correta): um misto do ditado “ter mais olhos do que barriga”, a que se adiciona um terço de imprevistos (a falência da distribuidora para os livros e a da distribuidora das revistas). Depois de juntar tudo, bate-se com uma dose de loucura e enfeita-se rodeado de muitas sanguessugas. Resultado: uma mistura altamente explosiva e de cor vermelha.

6) Como foi a fase seguinte na tua carreira. Isto é... entre a queda da Meribérica e a entrada na ASA?
Uns valentes meses de baixa à caixa e sem trabalhar. Os acontecimentos que vivera na empresa – sobretudo no último ano - tinham-me causado “mossa”. Infelizmente, causaram a muita gente.

7) Como aconteceu a tua entrada na ASA e que objectivos te foram propostos para o teu trabalho no Departamento de BD desta editora?
Um dos meus colegas da Meribérica – o Sancho Coelho que fazia parte da área comercial -, saiu da Meribérica em Junho/Julho (lembro-me que quando regressei de férias não havia departamento comercial) e ligou-me em Outubro, depois da Feira do livro de Frankfurt, a dizer que o Sr. Américo Areal (então dono da ASA) queria conhecer-me e falar comigo.
Disse-lhe que não estava interessada, mas insistiram, insistiram até que, em finais de Dezembro, aproveitando uma viagem que fizemos à Corunha, acabei por passar pelo Porto e ir conhecer a empresa.
Foi-me pedida a edição de cerca de 40 títulos de BD por ano, sendo que poderia escolher a minha equipa que seria constituída por 4 pessoas. Como não podia ir para o Porto (tinha a minha vida familiar estruturada em Lisboa), ficou acordado que ficaria a trabalhar em Lisboa. A minha missão consistia em tentar que a ASA fosse a maior editora de BD nacional (o que tentara antes, sem sucesso).
Em termos de equipa, a mesma foi sendo alargada ao longo do tempo, pois entretanto foi-me pedido que ficasse responsável pela contratação de outro tipo de livros para além da BD (culinária, e livros a que chamámos “linha mulher e vida”). Nessa altura, a equipa passou a contar mais 4 elementos (incluindo um paginador). Veio a ser novamente alargada quando começámos a efectuar a parceria ASA/PÚBLICO, com a contratação de outro elemento.

8) A compra da ASA pelo gigante Leya afectou o Dep. de BD da ASA?
Uma compra de uma empresa acarreta sempre mudanças. Mudanças na maneira de trabalhar, de relacionamentos entre superiores e colegas (passámos de uma empresa familiar para um Grupo de várias empresas até então concorrentes), nos processos de trabalho, nas dependências hierárquicas e sobretudo implica reestruturações. É uma mudança geral, que não afecta apenas um departamento mas um todo.

9) Quais foram as principais contrariedades que tiveste no arranque da ASA como grande editora de BD?
Não tive propriamente “contrariedades”, mas algumas dificuldades iniciais que se prendiam com o facto de o poder de decisão estar no Porto e de a equipa de BD estar em Lisboa. Havia também o “fantasma” da época em que a ASA tinha tido um catálogo de BD e que reportava aos finais dos anos 80, inícios de 90 e cuja última fase, por razões que ainda hoje desconheço, terão corrido “menos bem”.
Mas o ambiente no interior da ASA era óptimo (ainda hoje me lembro frequentemente de algumas pessoas de quem fiquei a gostar muito – nomeadamente do meu antigo patrão, o Sr. Américo Augusto). De resto, a proposta que me foi feita era um desafio, e eu gosto de desafios.

10) Nesse período houve bastantes séries que foram suspensas ou canceladas. Quais as razões que provocaram esta situação, razões editoriais? Vendas deficientes?
Houve várias e diferentes razões: Eu fui para a ASA nos inícios de 2002, e nessa altura os processos de impressão não são os que são hoje (a sobretudo a partir de 2005, a impressão através de fotolitos foi sendo posta de parte para dar lugar à impressão através de CD’s). Comecei a construir o catálogo com séries que em França já tinham algum tempo (algumas, eram as primeiras obras de autores como o Marini...). Em alguns casos, o processo de transformação do material de impressão dessas séries de fotolitos para CD’s levou algum tempo (os editores estrangeiros investiam sobretudo em séries mais recentes sendo que as séries mais antigas só foram digitalizadas à medida em que eram necessárias reimpressões e havia pedidos de vários editores).
Depois, havia a nossa própria capacidade interna de produção: apesar de sermos “muitos”, começámos em 2006 a trabalhar com o Público e não era fácil gerir as 3 áreas de edição que até então existiam e mais essa que era totalmente nova para a maior parte da minha equipa... E também é evidente que uma quantidade enorme de títulos a editar necessita de um maior investimento em termos de direitos que nem sempre está disponível.
Mas isso não te tira alguma razão: também houve séries que foram “mal” recebidas pelos leitores e que se afiguraram não rentáveis. E dou-te alguns exemplos: “O Rei Catástrofe”, “Fadas e Ternos Autómatos”...

11) Como funcionou a nível de conteúdos a parceria ASA/Público? Quem escolhia as séries, obras e capas?
O nome “parceria” indicia a resposta: havia uma apresentação à discussão de determinadas séries possíveis e chegava-se a um consenso.
O trabalho editorial era da responsabilidade do departamento de BD da ASA, e era previamente submetido a quem de direito até se obter o necessário consenso.
Mas era um trabalho para nós gratificante: há, sobretudo nas últimas colecções, pequenas subtilezas que podem passar despercebidas mas que a nós nos dava muito gozo discuti-las e pensar nelas.

12) Como viste essa parceria ASA/Público? Foi um sucesso comercial, ou houve alguns reveses nessa parceria?
Comecei a “sonhar” com uma parceria com o Público ainda na Meribérica. E um dia meti pés ao caminho e fui ao Lumiar (o Público ainda aí estava) falar com um responsável (salvo erro, o Engº. Marquitos).
Anos mais tarde, contei com todo o apoio do Sr. Américo Augusto para esta iniciativa e foi ele (não eu) quem fez as primeiras “démarches” para que o processo avançasse. Eu entrei a seguir. Por isso, essa parceria era uma coisa que eu queria muito, tinha lutado por ela. Vi-a, mais tarde, a dois “tempos”: um, de entusiasmo, outro, de cansaço. Mas penso que durante a minha permanência no projecto não houve muitos reveses.

13) Qual é a tua opinião sincera sobre a aventura Manga da ASA?
Acho que se apostou pouco em “marketing”. Mas eu tinha uma estratégia e custou-me muito ter de desistir deste projecto.

14) Se ainda fosses a responsável editorial da ASA e pudesses mudar algo hoje sobre a aproximação da ASA ao Manga, o que seria?
Em termos editoriais, e dentro das contingências – e a maior é o tempo que demoram as negociações contratuais (para te dar uma ideia, eu levei cerca de 5 anos a conseguir negociar o Dragon Ball) – não mudaria muito. Publiquei os “pais” do Mangá e gostaria de, a seguir, ter tido oportunidade de continuar numa série mais comercial (e com marketing, claro).
Mas é verdade que as vendas de Mangá estão a cair em toda a Europa e que em Portugal, numa época de crise, a edição de Mangá é “uma aventura”.

15) Quais os teus melhores momentos editoriais dentro da ASA?
Não sei dizer-te. Mas os meus melhores momentos são sempre momentos de construção de projectos e de partilha com os autores e com os leitores.

16) O que achas que precipitou a tua saída desta editora?
Fiquei sem a equipa editorial que eu tinha negociado e escolhido quando entrei para a ASA. E muitas dessas pessoas tinham abandonado, na altura, um emprego “seguro” onde estavam há muitos anos para me seguirem. Confiaram em mim. Eu senti não só que as tinha traído, como que tinha diante de mim um trabalho “colossal” que apenas duas pessoas não poderiam fazer (pelo menos, da forma como eu entendo que deve ser feito).

17) Já sei que conseguiste trabalho relacionado com a edição. Podes informar os leitores do nome da editora em que trabalhas neste momento, e quais foram os objectivos que te foram propostos?
Estou a trabalhar desde o dia 1 de Agosto na Verbo como responsável pelo catálogo infanto-juvenil. O que eu gostaria é que a Verbo pudesse um dia voltar a ser a referência que foi outrora.

18) Uma opinião sincera sobre o mercado nacional de Banda Desenhada?
É um mercado dividido entre o grande público, os “nerds” e os distraídos. O grande público só compra o que vê (e vê pouco), os distraídos de vez em quando tropeçam numa BD sabe-se lá por que acaso e os “nerds” falam, barafustam, mas fazem pouco (e quando fazem, cada um puxa para seu lado ou criticam o que os outros fazem). É um cansaço.

19) Uma opinião sincera sobre os autores portugueses?
Se mais não fosse, e porque a trabalhar para o mercado nacional, nenhum autor vive só da BD, ser autor português começa por ser uma pseudo-profissão.
Quanto aos autores portugueses, diria que há autores e Autores e convém distinguir. Mas regra geral há autores com talento e que não cumprem prazos, há autores que não aceitam críticas, há autores com sucesso e a quem o sucesso sobe à cabeça, e há autores que são sempre os mesmos: não se esquecem de que são pessoas. E como sabem que não há autores sem editores, não se esquecem da pessoa que és.

20) Como achas que se pode potenciar as vendas neste segmento de mercado, ou seja, colocar a Banda desenhada "na moda"?
Eu defendo que “só se procura aquilo que se conhece”. E fazer chegar a BD onde não existe foi sempre o meu lema. Trabalhar essa outra forma de divulgação, estar sempre a inovar e não a repetir o que os outros já fizeram, é o desafio. Só isso poderá criar aquilo que é mais urgente para que a leitura de BD não desapareça: uma nova geração de leitores. Se isso passa por fazer Web BD’s, porque não? Mas devemos ter em mente que há uma diferença entre fazer algo para nós (ou para meia dúzia de amigos) ou fazer algo para partilhar. E editar é partilhar. Se o livro não chegar aos leitores, para quê editá-lo, para quê criá-lo? Também não há autores sem leitores.

21) Qual é tua opinião sobre os festivais de BD que se fazem em Portugal, e o que achas que se poderia fazer para melhorar alguns deles?
Sou uma pessoa muito suspeita para falar dos festivais de BD, tanto mais que sei que tenho a minha quota-parte de responsabilidade no lançamento e na projecção que o Festival da Amadora alcançou (ainda o ano passado eu e o Eduardo Nascimento nos rimos das peripécias, trabalho e carolice – para fazer o primeiro festival que se resumiu a uma exposição do Lucky Luke na Galeria Municipal...).
Penso que é indiscutível que, por mais “imperfeitos” que sejam, têm a indiscutível vantagem de pôr muita gente a falar de BD e de levar a BD a outros públicos (como as escolas).
Mas considero que um festival de BD é um serviço (para mim a cultura é um serviço público) que tem de servir a comunidade. E deve entender-se comunidade não como um nicho, mas como a comunidade em geral. Eu não concordo nada com sessões de autógrafos de autores a assinar em papéis em branco, com leitores que se metem 3 e 4 vezes na fila (e são sempre os mesmos), com autógrafos em livros que não são comprados dentro do recinto do festival... deixando os leitores que compram os livros no festival (e se deslocam lá para isso) sem autógrafos.

22) Como organizadora dos Prémios Profissionais de Banda Desenhada (PPBD), o que achaste desta primeira edição.
Acho que demos um passo para chegar onde queríamos, ou seja, para que a nível institucional, os autores portugueses possam passar a estar representados nas Feiras Internacionais. Tivemos muitas críticas e sabemos que se pode fazer mais e melhor. Alguém se oferece? Autores e editores: querem pelo menos enviar-nos a lista das obras que publicam? Já era uma ajudinha...

Maria José e Nuno Amado
23) O que tu pensas sobre uma crítica muito apontada aos PPBD, sobre a designação "profissionais"? Não há profissionais de BD?
Acho que nem vale a pena perder tempo a responder a um “desabafo” tão infeliz como esse. Não houve há tempos um político que aconselhou os portugueses a emigrar? Esses velhos do Restelo podem ser os primeiros. Porque o que nós precisamos TODOS é de quem faça. Já não nos chega o que vemos na TV (e no parlamento) todos os dias?

24) Sei que não és vidente, mas fala do futuro da BD em Portugal. Negro? Está expansão? Como vês pessoalmente o futuro neste nicho de mercado em Portugal?
Eu defendo que “só se procura aquilo que se conhece”. Estou na edição de BD há cerca de 25 anos e posso dizer-te que as tiragens são cada vez mais reduzidas. Isso significa que há, em Portugal, menos pessoas a interessarem-se pela BD. Vamos ver o que vai acontecer nos próximos tempos, mas não estou muito optimista; além disso, o panorama económico também não é animador: as pessoas têm cada vez menos dinheiro para gastar em livros, há cada vez mais livrarias e outros pontos de comercialização de livros com problemas e há uma divisão enorme entre as pessoas que podiam fazer algo pelo BD em Portugal (este não fala com aquele por uma palermice qualquer, ninguém divulga convenientemente o que “é nosso”, não há debates, não há estudos, não há encontros sérios – como existiam por exemplo nos anos 70/80, quando o CPBD foi criado...).
Também aqui o que eu vejo é, uma vez mais, o célebre espírito português: o meu vizinho teve sucesso com o negócio e abriu um bar? Boa! Vou abrir um bar ao lado dele. Não penso que isto leve a lado algum, mas veremos.

25) Fala um pouco de ti, anseios, gostos culinários, musica... enfim, a maior parte das pessoas não conhece a Maria José fora da BD, poderias falar então um pouco de ti?
Sou exigente comigo própria e com quem trabalha comigo, sei muito bem o que quero, defendo que a vida é um bem precioso - e escasso – e que não deve ser desperdiçada nem com coisas nem com pessoas que não valham a pena. Tenho como lema de vida fazer aos outros aquilo que gostaria que me fizessem a mim própria e seja quais forem as consequências, agir sempre de acordo com a minha consciência. Defendo que a vida nos foi dada para sermos felizes e que, para isso, precisamos de muito pouca coisa. Adoro o sol, a alegria de viver dos países a sul do equador, as mornas, os merengues e o samba, faço ioga, gosto de pintar, gosto de escrever, faço escultura... Sou curiosa, a realizar qualquer coisa prefiro coisas complicadas a coisas simples, gosto de ler (para além da BD). Alguns dos meus autores preferidos? Albert Camus, Jorge Luís Borges, Fernando Pessoa, José Saramago... A viagem dos meus sonhos? Cuba e Cabo Verde. O prato de que tenho mais saudades? A canjica que comia em Angola quando era miúda. De resto, gostando sobretudo de peixe só não como cabidelas e coelho. A única coisa de que não prescindo no mundo? Da minha grande família afectiva (não forçosamente biológica), de andar descalça sempre que posso, de um bom queijo e um copo de tinto fresco e de ter a casa cheia de amigos.

26) Para finalizar poderias deixar uma mensagem aos leitores do blogue Leituras de BD?
Sigam os vossos sonhos e o blogue do Nuno. É aí que se cruzam os nossos interesses.

Obrigado Maria José!
:)

De nada. Um abraço para ti,

Mjosé

Pronto. Só me resta agradecer à Maria José esta entrevista, e esperar que seja do vosso agrado!

Boas leituras

PS: Esta entrevista foi combinada no final de Junho e iniciada em 22 de Julho.
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